segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Adaptation - Inadaptado (2002)

Confissões De Uma Mente Bloqueada

"Adaptation" é uma das mais geniais obras dos últimos anos! Só mesmo Charlie Kaufman para conseguir levar a bom porto uma bizarria deste género, que tem tanto de cómico como de ternurento. A inspiração para a criação deste inusitado filme partiu da real dificuldade de Kaufman em adaptar cinematograficamente o livro de Susan Orlean, "The Orchid Thief", que se baseia nas desventuras de John Laroche (um homem algo rude que nutre uma verdadeira obsessão pela busca de plantas exóticas). O que se examina em "Adaptation" é exactamente o argumentista Charlie Kaufman e as suas problemáticas em tecer uma narrativa cinematográfica baseada na obra de Orlean, ao mesmo tempo que espreitamos a investigação desta em torno do homem das plantas, que lhe permitirá escrever o seu livro.

Pelo meio, surge o irreverente e ficcionado irmão gémeo de Charlie, Donald, decidido a seguir o ofício do mano, se bem que sem grandes rasgos de originalidade. O grande senão de toda esta trama é que Charlie está a atravessar um período de bloqueio criativo, em que a escrita não lhe flui de todo. A poucos e poucos, sem consciência disso, Charlie começa a incluir-se no argumento que está a escrever, deturpando a essência original da obra e contaminando-a com as suas próprias angústias e neuroses. No outro pólo, Donald inicia um percurso de triunfo com a sua escrita banal e apressa-se então a dar uma ajudinha ao irmão em apuros.

Confusos? É normal que sim, até porque tentar explicar o filme é uma tarefa árdua e quase sempre mal-sucedida. Mas não há nada a temer: depois de se ter contacto com esta obra-prima, não é assim tão complexo perceber todas estas teias humanas. No fundo, o filme que vemos não é a adaptação do livro de Susan Orlean, mas sim a complicação de Charlie em ultrapassar a sua fase negra e como a sua vida disfuncional começa a afectar a metodologia do seu trabalho. Este insólito filme demonstra, de forma bastante acutilante, a dificuldade e as técnicas presentes no processo de criação dos diferentes objectos de arte e lança uma dura crítica à estafada fórmula "Sexo + Drogas + Violência Gratuita = Sucesso" que sempre imperou no reino cinematográfico, com maior ou menor qualidade.

O final satírico, que parece descambar e estragar tudo o que vinha sendo construído tão eficazmente, é mais inteligente do que parece e é a conclusão mais que perfeita para um filme tão alucinado quanto este (é só juntar as peças soltas e o sentido vem logo ao de cima). Os actores estão todos em topo de forma: Nicolas Cage em versão dupla exemplifica o excelente actor que é quando tem realmente uma personagem e um bom filme para defender; Chris Cooper continua um belíssimo actor de composição e Meryl Streep é a Meryl Streep, fabulosa como sempre e a personificação ideal de vulnerabilidade e sensibilidade. Depois de "Being John Malkovich", prova-se mais uma vez que a união Charlie Kaufman e Spike Jonze tem muito caminho ainda por desbravar. Uma delícia de filme...


Classificação: 5/5

7 comentários:

Betty Coltrane disse...

sem dúvida nenhuma!!! =D

Adorei! Ah, e por falar nisso, ainda tenho aqui os teus dvds... *cora de vergonha*

adorei o final, é tão absurdamente perfeito!

wasted blues disse...

Ainda não o vi desde a estreia em cinema. Achei tão bom que, por enquanto, prefiro não rever.

Cataclismo Cerebral disse...

Betty: Não te preocupes com isso e não te esqueças que também tenho aqui os teus. O Adaptation não é para todos os gostos, eu percebo isso, mas é um objecto extremamente original :)

Wasted Blues: Acho que é um filme viciante, um dos grandes marcos do cinema recente.

blueminerva disse...

Muito bom, mas por umas reles décimas prefiro o "Being John Malkovich".
Confesso que também tenho um certo fascínio pelo John Malkovich... coisas de gaja amigo cataclismo.
Um abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Blueminerva: Tenho aqui o "Being John Malkovich" para rever. Ora essa, esteja à vontade :)

Abraço

Rui Luís Lima disse...

Charlie Kaufman tem-se revelado como uma das mentes mais brilhantes do universo de argumentistas de Hollywood, numa época em que os remakes estão na ordem do dia, por falta de ideias.
abraço cinéfilo

Cataclismo Cerebral disse...

Rui Luís Lima: Concordo em absoluto! A mente do senhor é brilhante...

Abraço