segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Deliverance - Fim-de-Semana Alucinante (1972)

Que bem que se está no Campo...

Para escapar ao stress da vida citadina, quatro amigos com personalidades bem distintas decidem fazer canoagem num rio da Georgia, rio esse que está prestes a sofrer algumas alterações estruturais. O fim-de-semana é a altura indicada para todos deixarem o trabalho de lado, para fugirem um pouco à extenuante vida familiar e se dedicarem a algum ócio. As paisagens do local escolhido são belíssimas (se bem que extremamente selvagens) e tudo parece ser desafiante e prometedor. O grande problema é que alguns elementos da população local, perante a estranheza que aquele grupo de amigos lhes provoca, decidem seguir impiedosamente os recém-chegados. A abordagem começa como um jogo de provocações, onde se atestam todas as diferenças culturais e de personalidade, mas logo a situação descamba para ataques selváticos e chocantes em que o "grupo citadino" tudo terá de fazer para sobreviver! "Deliverance", um filme realizado por John Boorman nos idos de 72, continua a ser um objecto cinematográfico fresco e visceral, que encena o conflito cultural entre o rural e o urbano, assunto esse que estava na ordem do dia na altura em que o filme foi lançado. O argumento está milimetricamente construído e traz à memória algumas das questões levantadas pelo livro de William Golding, "O Deus das Moscas": como reage um grupo a um cenário que lhe é completamente desconhecido e que o coloca em situações de grande intensidade emocional e física?; como gerir a natureza humana e a alienação num contexto desregrado?; quem assume a liderança e quem se deixa liderar (e porquê)?. ... "Deliverance" prima por ser um verdadeiro marco do cinema dos anos 70 que ousou em jogar com assuntos da agenda política da altura. É uma experiência intensa, de nervo, que sobreviveu ao teste do tempo e que contém algumas cenas que ficaram vincadas na cultura popular, nomeadamente aquela em que a frase "I'm gonna make you squeal like a pig!" é proferida. Esta cena continua a ser completamente aterrorizante e um bom exemplo do quão transgressor foi o filme na sua época. Jon Voight, Burt Reynolds, Ned Beatty e Ronny Cox dão interpretações sentidas e recheadas de nuances, reclamando toda a nossa atenção e colocando-nos em conflito com os nossos próprios padrões morais. Actualmente são poucos os thrillers que conjugam tanta inteligência, minimalismo e visceralidade. Nomeado para 3 Óscar.


Classificação: 4,5/5

3 comentários:

Maria del Sol disse...

Já não me lembrava deste clássico de culto. Acho que nunca o vi, mas pela tua sinopse tem todos os elementos para ser o thriller perfeito :)

Beijinhos

O Homem que Sabia Demasiado disse...

Vi há muitos anos. Curiosamente, encomendei-o hoje mesmo em DVD no site dvdgo.com, já que, tanto quanto sei, não existe edição nacional.
Bom texto.

Cataclismo Cerebral disse...

Maria: É bem bom sim senhora e continua a ter um efeito devastador!

OHQSD: Também apanhei este filme na TV há uns anos e marcou-me imenso. Também não tenho conhecimento da edição em DVD em Portugal. Obrigado :)

Bj e abraço