quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Elephant - Elefante (2003)


O Liceu Da América

O premiado filme de Gus Van Sant, interpretado na sua maioria por não-actores, é um prodígio de inteligência e contenção. Implanta-se nos terrenos do documentário e seduz pelo low profile que denota, tendo em conta o polémico assunto que aborda. É mais do que sabido que Elephant centra-se no massacre do liceu de Columbine, em que dois jovens entraram no estabelecimento destinados a roubar desalmadamente a vida a colegas e professores. Com uma temática controversa e perturbadora como esta, o realizador poderia ter optado por um filme histriónico e maniqueísta, mas não. E é precisamente aí que Elephant ganha pontos! O argumento assume desde o início uma postura soft e não caracteriza as suas personagens principais (os adolescentes) da forma mais óbvia, dando espaço ao espectador para tentar decifrar o tipo de personalidade e comportamento de cada um deles. Elephant escapa ileso às convenções televisivas sobre jovens estudantes que se lhe podiam colar e sente-se o pulso firme e maduro no tratamento da história e no controlo daquele espaço específico. Tudo é subtil, mas ao mesmo tempo tudo incomoda, pela radicalidade dos sentimentos que despoleta. Apercebemo-nos das diversas mentalidades e acções reinantes naquele liceu, dos medos, tensões e inquietudes e o espectador sabe a tragédia que se irá desenrolar, que consegue chocar sem limites. Aqui não se manipula descaradamente, apenas são revelados indícios que possam explicar o brutal acontecimento, mesmo que no final não se aponte um dedo ou que não se conclua nada de concreto. A saber: a relação dos jovens com a violência, a facilidade de acesso a produtos ou conteúdos com essa carga violenta, o acumular de humilhações por parte de colegas e a consequente marginalização escolar e social,... Mas tudo é focado de forma tão transparente e serena, que nunca se pode dizer que Elephant constitui um panfleto demagógico; mete sim o dedo na ferida sem que se dê por isso. E essa posição subliminar faz deste um brilhante, brilhante filme.


Classificação: 5/5

11 comentários:

Gonçalo Trindade disse...

"Mas tudo é focado de forma tão transparente e serena, que nunca se pode dizer que Elephant constitui um panfleto demagógico; mete sim o dedo na ferida sem que se dê por isso."

Exacto. Absolutamente de acordo com a tua óptima crítica, e creio que este pequeno pedaço resume na perfeição aquilo que eu pessoalmente senti quando vi o filme. É uma obra-prima feita com uma sensibilidade e com uma subtileza como muito, muito raramente se vê no cinema.

Francisco Mendes disse...

Um dos incontornáveis e obrigatórios filmes contemporâneos.

Maria del Sol disse...

É mais uma das minha muitas lacuncas não ter ainda visto este filme, mas quero fazê-lo para comparar a sua abordagem ao tema da violência nas escolas com a de Michael Moore em "Bowling for Columbine". Obrigada pela sugestão e bom fim-de-semana :)

Luís Alves disse...

nesta obra-prima, o que me impressionou e marcou, foi a capacidade de manipulação e distorção temporal, que van sant atinge, nunca confundindo o espectador. uma obra de génio

daniel disse...

é, sem sombra de dúvida, uma obra-prima. Uma das críticas que tenho ouvido diz que o filme é demasiado parado. Nada pode ser mais contrário à realidade. Até no próprio uso da câmara, delicioso, tudo foi cuidadosa e finamente orquestrado para que possamos ver as coisas de um ponto de vista diferente daquele a que nos habituaram, não só Hollywood mas também todas as restantes Hollywoods que há por esse mundo. Mas porque é que o filme não é parado? Na verdade é muito simples: porque está sempre algo a acontecer. Todas as cenas são riquíssimas porque é a vida, a vida que verdadeiramente existe, que acontece, e cada plano revela um aspecto novo e diferente de cada personagem, muitas vezes com um grau de profundidade e pormenor que nos ultrapassa - e que tantas vezes nos passa despercebido por um único visionamento. Quando penso em Elephant vem-me à memória Bertolucci e a sua obra-prima The Dreamers. Todas as partes têm em si mesmas contidas o Todo, e cada parte está no lugar certo e à hora exacta para que a nenhum fotograma se escape a mensagem que se pretende transmitir. E isso, sim, isso é que é O Cinema.

Cataclismo Cerebral disse...

Gonçalo: É mesmo, este tipo de subtileza é uma raridade. Tenho pena que pouca gente tenha visto este filme.

Francisco: Completamente obrigatório!

Maria: Ver este Elephant em sessão dupla com o documentário do Michael Moore é uma opção muito inteligente.

Luís: Adoro a subtileza daqueles slices of life. Ainda bem que Van Sant nunca aliena o espectador.

Daniel: Também já ouvi críticas que falam do "parado". Nada mais errado, porque em cada plano ficamos fascinados com o pulsar da vida. Quanto ao The Dreamers, que belo filme e bela referência :)

Bj, abraços e bom fim de semana

Betty Coltrane disse...

Também ainda não vi, infelizmente.... embora já tenha tropeçado com ele pela tv...

mas quero vê-lo do princípio ao fim com atenção!

beijões!! =))

blueminerva disse...

Elephant é um grito surdo no meio de toda esta indiferença em vivemos hoje.
Gus Van Sant mostra-nos num estilo documental, uma realidade crua e sem "make-up", de um dia numa escola secundária nos EUA, que seria como qualquer outro se não tivesse terminado numa tragédia brutal.
É um retrato da adolescência duma forma quase naturalista, sem qualquer tipo de fórmulas esteriótipadas.
Gus Van Sant oferece-nos as peças dum "puzzle" mas nós é que temos de o completar e dar-lhe um significado.
Cumptos

Cataclismo Cerebral disse...

Betty: é obrigatório ver Elephant :P

Blueminerva: Totalmente de acordo.
É de facto o que penso sobre o filme...

bjs

Pedro Duarte disse...

Um dos meus filmes favoritos, sem dúvida. A repetição das mesmas cenas com ângulos diferentes e a não-linearidade do tempo dá a impressão de que se trata mais de um sonho em vez de pesadelo.

Boa crítica, gostei de ler.

Cataclismo Cerebral disse...

Exactamente, o filme parece ter uma aura de paz/sonho, mas no entanto pressente-se uma mood de mau-estar que irá eclodir naquela catástrofe.

Abraço Pedro!