sábado, 1 de dezembro de 2007

Eastern Promises - Promessas Perigosas (2007)

Longe Do Paraíso

Custa-me dizer isto, mas cá vai: "Eastern Promises" é a maior desilusão cinematográfica que tive este ano, até este momento. David Cronenberg é um realizador que sempre admirei pela sua capacidade de focar eximiamente o tema da dilaceração física e psicológica nas suas personagens atípicas. Mas em "Eastern Promises" não tive a sensação de perturbação e provocação de outrora (nem mesmo de grandes rasgos de criatividade). Pode até ser uma obra de contornos negros que tenta arriscar, mas inexplicavelmente o filme acaba por cair no terreno mais convencional. A história situa-se na Londres dos dias de hoje e gira em torno de Anna, uma parteira que socorre uma jovem de Leste em grave estado clínico. Infelizmente a jovem acaba por falecer, mas o seu bebé sobrevive e é então aí que Anna decide investigar o paradeiro da família da rapariga, recorrendo a um diário que esta trazia consigo. Ao querer traduzir os conteúdos do tal diário, Anna coloca-se em risco e acaba por ser conduzida a uma das mais influentes famílias da máfia de Leste a operar na capital e ao seu enigmático motorista Nikolai. Digamos que o filme tem pontos de partida bem intrigantes (as relações humanas em contextos de extrema violência, os códigos de honra e ética do submundo, o passado que teima em atormentar,…), mas não envolvem o espectador por aí além e conduzem a algumas situações mal resolvidas e a conclusões não muito interessantes (e a um final muito apressado e atabalhoado). Viggo Mortensen eclipsa tudo e todos com o seu Nikolai e só pela prestação dele já vale a pena o visionamento do filme. O pior está mesmo reservado para a inconsequente personagem Anna (Naomi Watts), que desencadeia os acontecimentos mas que não tem espaço nem tempo suficientes para ser devidamente desenvolvida. É pena, pois Naomi Watts é das mais esplendorosas actrizes da actualidade, mas aqui está claramente sub-aproveitada. No entanto, tenho de fazer justiça às interpretações de Vincent Cassel e Armin Mueller-Stahl, repletas de ambiguidade e servindo de excelente suporte à personagem de Viggo, embora não cheguem para salvar o filme dos seus desequilíbrios. As cenas-choque são também de se lhe tirar o chapéu, uma vez que primam pelo realismo e crueza e denotam a vontade do realizador em ir mais além nestes termos. Péssima é a narração, que é sem sombra de dúvida a pior que alguma vez vi/ouvi num filme: é um exercício de auto-comiseração involuntariamente cómico, ao qual nem sequer falta a música do “coitadinho” como pano de fundo. Tudo o que é relatado é triste e deveria emocionar-nos, mas não é isso que acontece; a forma como a história é contada anula inteiramente o envolvimento do espectador e abafa a frontalidade que se exigia (e que teria produzido o efeito desejado). Contas feitas, “Eastern Promises” deixa uma enorme sensação de vazio, de alguma banalidade emocional (aquele romance incipiente não me convence) e de falhanço na originalidade, apesar de ter uma premissa sugestiva e um elenco carismático.


Classificação: 2/5

13 comentários:

curse of millhaven disse...

:s e eu q até tinha alguma curiosidade em relação a este filme. mas agr tb ando tão arredada do cinema...

Gonçalo Trindade disse...

Oh raios... enfim, parece que nem todos os fãs de Cronenberg vão gostar disto. Não és a primeira pessoa a dizer que é uma desilusão... a ver vamos. Tenho de o ver em breve.

Paulo disse...

Eu gostei do filme, embora não o considere uma obra-prima. Ainda assim, tem excelentes cenas e é um trabalho puramente Cronenberguiano, o que é sempre bom de ver. Recomendo.

Carlos Pereira disse...

Dá-lhe uma segunda oportunidade. Vais reparar que é dos filmes com uma força maior dos últimos anos: coeso, profundo, humanamente complexo. Um derradeiro murro no estômago. Há algo de absolutamente transcendente nesta obra-prima de Cronenberg, algo que vem dos clássicos mas que ao mesmo tempo é obsessivamente presente e original.

Um grande abraço Cataclismo ;)

wasted blues disse...

Estava a ver que toda a gente gostava do filme, mas de uma rajada li 3 blogs que não gostaram. Ainda bem, é sinal de leituras e emoções diferentes.

Para mim, por exemplo, as maiores desilusões do ano foram Lynch e Coppola...

Cataclismo Cerebral disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cataclismo Cerebral disse...

Foi uma desilusão enorme! Não digo isto por estar a fazer comparação com os trabalhos antigos de Cronenberg: não, isoladamente acho que "Eastern Promises" é um filme claramente falhado. É pena, pois tinha altas expectativas... Infelizmente não acredito que um 2º visionamento me satisfaça ou me faça ver o filme com outras perspectivas.

Abraços

blueminerva disse...

Gostei muito de "Uma história de violência" mas sobre "Promessas Perigosas" não tenho, de facto, lido boas críticas. Ainda assim, espero ver.
Um abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Blueminerva: Apesar de tudo recomendo que se veja o filme. Pode ser que não te desiluda tanto quanto a mim.

Abraço :)

Pedro disse...

Em geral nao partilho da tua opiniao. O filme tem os seus defeitos, sem dúvida, mas para mim nao deixa de ser um bom filme. Não deixo de reparar, contudo, que o filme me surpreendeu pela sua simplicidade, por outras palavras, estava à espera de algo mais...longo e cru.

Cataclismo Cerebral disse...

Desiludiu-me muito este Eastern Promises, Pedro. Só aquela narração já é um grande ponto fraco. Mas a história em si, a Naomi Watts sem espaço, o pseudo-romance... enfim, melhores dias virão para Cronenberg!

Abraço

Anônimo disse...

Grande filme!
Ir menos vezes ao cinema e escolher melhor os filmes que assistirão. Assim vão ter mais prazer com o cinema. Exposição demais atrapalha. Meu conselho a vocês.

Cataclismo Cerebral disse...

Escolho muito bem os filmes que quero ver. Até porque não ando a nadar em dinheiro e a contenção é uma coisa muito bonita :) Neste caso, sendo fã de Cronenberg, não podia perder este trabalho. Acontece que não gostei, mas o que é que se pode fazer? São opiniões, temos que conviver com a diversidade que esse conceito acarreta. Não acredito na redução da exposição ao cinema como ponto fundamental para apreciar melhor os filmes... Aceito o conselho, mas não o vou aplicar, peço desculpa.

Abraço!