terça-feira, 20 de maio de 2008

Blue Velvet - Veludo Azul (1986)

Pecados Íntimos

Jeffrey Beaumont regressa à sua idílica cidade natal para visitar o pai, que se encontra num deplorável estado de saúde. Ao passar num terreno baldio, Jeffrey dá de caras com uma orelha humana ali atirada. Curioso, o jovem decide atiçar o perigo ao atirar-se à sua própria investigação, aliciando a sua inocente namorada para essa jogada. O que se vem a descobrir é um submundo de perversão, crime e violência encabeçado por um toxicodependente sádico e psicótico e pela perturbada cantora de bar cuja existência ele teima em infernizar. Por detrás da beleza atractiva e aconchegante daquela pacífica terreola esconde-se um mal que vai corroendo sem piedade...

Blue Velvet foi o filme de David Lynch que mais gente irritou (críticos e públicos, venha o Diabo e escolha...), uma vez que o realizador expôs, sem quaisquer tabus, a hipocrisia do way of life das pequenas comunidades do interior norte-americano, que sob o véu da suposta moral imaculada e da perfeição quotidiana se recusa a confirmar a existência dos seus próprios demónios interiores. A mordaz abertura do filme é de um valor simbólico que não deixa margem para dúvidas: as casas impecavelmente cuidadas, os jardins bem regados e uma paz solarenga convidam à contemplação mas encobrem uma força maligna não perceptível, que destrói as bases dessa ilusão bem engendrada.

Tendo por base uma parábola lôbrega sobre o inglório esforço de erradicação do Mal, Lynch revitaliza aqui o arquétipo do filme noir, que tão boas colheitas forneceu na época dourada de Hollywood. Mas é claro que o realizador não se esquece de conferir o seu cunho pessoal, e assim reveste Blue Velvet com camadas de sátira lancinante, decadência física e moral e perversidade ultra-chocante. Por vezes o visionamento torna-se quase impossível, tal o tempero maquiavélico a que a personagem de Isabella Rossellini está sujeita. A interpretação da actriz é quase um acto divino de total despojamento, que oscila entre o terror do Inferno e a catarse do Céu.

Pode-se dizer que o filme de 1986 foi a fonte de inspiração para séries como Twin Peaks (uma criação do próprio David Lynch em parceria com Mark Frost), Desperate Housewives e Weeds e para obras cinematográficas como Little Children, Happiness e American Beauty. O realizador viria a suavizar a imagem do interior do país com essa obra-prima de 1999 de seu nome The Straight Story, com Richard Farnsworth e Sissy Spacek.


Classificação: 4/5

9 comentários:

blueminerva disse...

Já vi quase tudo o que existe com a assinatura de Lynch... é um dos meus realizadores preferidos.
Definir David Lynch não é fácil. Diria que o realizador norte-americano é um verdadeiro explorador dos mais recônditos lugares da mente humana e um paradigma da generosidade cinematográfica, porque os seus filmes deixam de lhe pertencer – após o visionamento – e passam a ser nossos. É isso que o torna ímpar no mundo do cinema.
A obra do estranho realizador é fascinante, porque os seus argumentos escondem narrativas paralelas. Para entender a obra de Lynch, é necessário desmontar os filmes, analisar pormenorizadamente a narrativa e voltar a montar. Não é fácil, e quem não está pronto para aceitar o convite, fica à porta do labirinto.
A obra de David Lynch é digna de uma longa tertúlia.
Um grande abraço

Red Dust disse...

A mim não me irritou nada o filme, até porque não sou americano e, por isso mesmo, não estou preso a certos códigos escondidos naquela sociedade.

Lynch constrói de forma atrevida, e até intrigante, outra das suas viagens psicológicas. Diferente entre diferentes como é seu hábito. E, depois, ter o prazer de dirigir Isabella Rossellini deve ser outra viagem... esta pelos sentidos.

Um destaque também para a banda sonora de grande nível.

A minha classificação: 8/10.

looT disse...

E a banda sonora que é tão importante neste filme, gostei muito e já o tenho cá em casa para poder rever :)

Abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Blueminerva: Concordo com tudo o que disseste Lynch é também o meu realizador preferido e os seus filmes têm esse dom de conduzir a interpretações profundas. Ficar pela superfície não é de todo o jogo do mestre. A cada visionamento descobre-se sempre uma outra perspectiva que tinha ficado perdida. Nem sempre será fácil entrar no seu mundo, mas quem se atrever terá umas experiências inolvidáveis à sua espera.

Red Dust: A mim também não me irritou mesmo nada; há que ter discernmento suficiente para admitir as nossas feridas interiores. Lynch fê-lo e recebeu críticas iradas até ao tutano... Esta é uma viagem perturbadora, mas no final torna-se emocionalmente compensadora. A banda-sonora a cargo do sempre excelente Badalamenti é um espectáculo.

Loot: É verdade, até porque Lynch nunca descura a qualidade musical nos seus filmes.

Abraços

Gooffy007 disse...

Concordo com tudo que foi dito.
Estive à bem pouco tempo em Milão onde decorria uma Exposição dedicada a D.L. (esperemos que passe por cá) onde estava um espólio do artista fantástico, que iam desde de Sets, Telas, Fotografias, desenhos, Colagens e Curtas; e é assombrosa a capacidade criativa deste senhor, a dimensão onírica do seu mundo e angustiante e avassaladora.

Se ainda houvesse duvidas à cerca da existência de vida extraterrestre, D.L. é a prova de que essa vida existe, existe numa dimensão completamente marginal e a milhares de KM da nossa realidade, quem o ouve falar, quem vê o seu trabalho, facilmente concede que estamos perante um louco, um alucinado, como dizem os americanos “a breed apart”

É Indiscutivelmente o grande génio do nosso Século em todas as suas dimensões.

Luís disse...

E depois temos aquele Dennis Hopper deliciosamente demoníaco, num dos grandes vilões do cinema. Quanto a mim este é o filme mais bem conseguido de Lynch, pois conseguiu equilibrar a sua marca bizarra com uma história bem contada. Grande Filme. Eu daria lhe 5!

Cataclismo Cerebral disse...

Gooffy007: É de facto um génio com capacidade de se adaptar às diversas linguagens que o cinema proporciona. É alguém que reinventa constantemente as paisagens humanas e sociais a seu bel-prazer.

Luís: E num dos seus grandes papéis de sempre. Estive dividido entre o 4 e o 5, mas fiquei-me por esta classificação. Ainda assim, grande filme!

Abraços

Hugo disse...

Sem dúvida a obra de Lynch é única, este filme por exemplo é muito bom e como vc escreveu, foi quase um treinamento para "Twin Peaks", uma série sensacional.
Acho apenas que Lynch as vezes exagera na dose de seus delírios, deixando alguns de seus filmes sem muito sentido.

Abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Não concordo. Os filmes dele têm muito "sumo", só que não são é facilmente decifráveis. Mas se estivermos dispostos a aceitar o desafio de os interpretar teremos belos conteúdos à nossa espera. Os delírios são apenas uma parte da criatividade de Lynch que ajudam a compor o quadro.

Abraço