sábado, 3 de maio de 2008

Miami Vice (2006)

Os Vícios da Noite

Miami Vice é a adaptação cinematográfica da famosa série homónima dos anos 80, em que uma dupla de agentes de um departamento de crime organizado se movia no sentido de capturar os mais diversos criminosos. Tudo sem esquecer a influência dos ambientes e tendências da altura. Michael Mann, o maestro por detrás de filmes como Heat e Collateral, foi o responsável pela realização do filme, numa decisão que provocou alguma surpresa. De facto, quais terão sido as motivações que levaram um realizador talentoso a actualizar em película um produto que marcou um tempo muito específico? Será que Miami Vice conseguiria equilibrar-se qualitativamente num meio audiovisual tão diferente daquele onde alcançou as suas glórias? Se a resposta à primeira pergunta continua indecifrável, já a segunda está mais que descodificada. O resultado é um falhanço artístico de proporções colossais, que destoa por completo na cinematografia do realizador.

O argumento centra-se numa missão de identificação de um grupo de criminosos, em que se inclui uma elaborada estratégia de transporte de carregamentos de droga. Ricardo Tubbs e Sonny Crockett são, como não podia deixar de ser, os polícias destacados para deslindar as arestas deste mapa de corrupção internacional. Enquanto Crockett se deixa aos poucos enfeitiçar por Isabella (a enigmática mulher de um traficante de armas e droga), Tubbs vê a sua vida pessoal misturar-se com os enleios da sua arena profissional.

É mais que sabido que Michael Mann é um sofisticadíssimo artesão das luzes e dos seus múltiplos contrastes, num jogo que se desenvolve essencialmente na intimidade da noite e onde a captação da dimensão trágica das personagens é um dado adquirido. Ele é um visionário que sabe filmar as facetas da acção como poucos, porque nunca se esquece da importância da inclusão de uma vertente afectiva/emocional nesses domínios (é essa conjugação da acção com a emoção que, em última instância, prende a atenção do espectador) . Notório é também o esforço de revitalização do género policial (que anda um pouco moribundo nestes dias) através do recurso às mais recentes tecnologias de gravação de imagem. Esta opção pelo digital permite que o filme apresente uma componente vertiginosa de quase-reportagem, alargando-se assim os horizontes no que diz respeito ao desenvolvimento da estrutura formal.

Pena é que este nível de idoneidade não se verifique no campo da narrativa. Miami Vice apresenta resoluções muito estafadas (aquela cena de emboscada que engloba uma entrega da pizza então é completamente para esquecer), para além de propagar os estereótipos mais prosaicos neste tipo de intriga. Alguns pontos de interesse são fundidos com tantos outros onde a monotonia se instala e onde o aborrecimento encontra um aconchego. Depois, a questão da química entre a dupla de polícias falha por competo: eles estão lá mas não se sente nenhuma ligação particularmente estimulante, o que é fatal para os propósitos do filme. Ainda para mais, a personagem de Jamie Foxx - o agente Ricardo Tubbs - é tão marginalizada que chega a meter dó. O grande, grande trunfo do filme encontra-se mesmo na beleza da teia amorosa que envolve Colin Farrell e Gong Li. Essa relação condenada ferve de tanto lirismo e é a personificação de um desejo quase proibido e desencantado. Desejo esse que se desenvolve com a cumplicidade de uma banda-sonora carismática...

Infeliz constatação: este é mais um objecto inconsequente, um daqueles tristes exemplos em que a forma se sobrepõe claramente ao conteúdo. Pode ser uma obra muito cool, capaz de agradar a diferentes tipos de público, mas não deixa ser banal. Que este desastre tenha ocorrido numa carreira tão límpida quanto a de Michael Mann, eis a maior das surpresas!



Classificação: 1,5/5

11 comentários:

blueminerva disse...

Gosto do Jamie Foxx. Já Colin Farrell, ainda não me convenceu. Não vi "Miami Vice" porque não é nada o meu género de filmes.
Um abraço

Red Dust disse...

O filme salvou-se apenas pelos pormenores na filmagem de Mann e a actuação de Gong Li.

Colin Farrell, tão mal caracterizado (que é aquilo?), não saíu da mediania.

A Foxx não lhe foi dado o espaço suficiente para brilhar.

Gong Li, sim, essa esteve como 'peixe na água'. Fosse ela americana e seria adorada por todos.

A minha classificação: 6/10 (quase a fugir para o 5...).

calminha disse...

A Foxx ficou aquem do k podia fazer neste filme.parabens pela critica
bj

RJ disse...

Também não gostei muito. As suas cores e "jogos de luzes" bastante elogiados, e que Mann sabe realmente fazer bem, não são nada que não tenha sido visto no excelente "Collateral".
Ainda por cima, Colin Farrel, é um actor que não me convence, e aqui não foi excepção...

Abraço

looT disse...

Não é dos meus favoritos de Mann, mas 1,5 é muito baixo daria-lhe sempre nota positiva.
E eu até simpatizo com o Colin Farrel estou ansioso para o ver em "Cassandra´s Dream".

Abraço

Izzi disse...

Eu gostei bastante do filme, mas não posso deixar de concordar contigo quando dizes que é um filme em que a forma se sobrepõe ao conteúdo - é de facto o caso, infelizmente. E o Colin Farrell está de facto muito mal caracterizado...

fes disse...

Quando o vi achei que ia ser um risco. Aliás é sempre um risco enorme pegar em momentos marcantes de um tempo específico de produções televisivas e adaptá-los numa realidade quase inversa.

Não gostei nem deixei de gostar. Houve ainda alguns momentos em que sorri, mas não foi certamente em nenhum dos planos em que Colin Farrell e Gong Li surgiam. Aliás foi com pena que me apercebi da prestação de Farrell e ainda pior o facto de enclipsarem Foxx com ela.

No fim sai com mais uma dúvida do que entrei, mas com igual apatia. Que é que deu a Michael Mann?

*

Cataclismo Cerebral disse...

Blueminerva: Também não é o tipo de filme que mais me entusiasme, mas quando os créditos revelam que o realizador é Michael Mann, então dou sempre uma espreitadela. Foxx é um óptimo actor, mas foi esquecido. Farrell tem capacidades, mas ainda tem um bom caminho para trilhar.

Red Dust: O trabalho de Mann e a relação amorosa condenada são mesmo os pontos do filme que o livram de ser um balão furado. Fora isso é banalíssimo até mais não.

Calminha: É pena, porque ele é de facto muito talentoso... Quem sabe numa próxima o Mann o volte a aproveitar tão bem como fez no Collateral. Obrigado ;)

Rj: Sim, não é uma abordagem nova por parte de Mann, mas não deixa de ser uma mais valia num filme oco. Farrell teve a infelicidade de tentar interpretar um homem com um nível de maturidade que não é o seu.

Loot: Eu também confio nas potencialidades de Farrell, só que este filme está à beira do intragável. Ainda não vi Cassandra's Dream, onde se diz que ele vai muito bem.

Izzi: Eu queria ter gostado do filme. Farrell foi mais ou menos um erro de casting, mas a química dele com Gong Li foi muito bem apanhada.

Fes: No tratamento da narrativa não se parece nada com um filme de Mann. Parece até que o realizador entrou em modo automático. Continuo a achar que a relação Farrell-Li é a luz neste buraco negro...

Abraços!

Rui Luís Lima disse...

Michael Mann ao realizar este filme decidiu passar para o grande écran a série que lhe deu fama. Embora o filme tenha ficado longe do que todos esperávamos não deixou de marcar esse território de autor, a que Michael Mann pertence. Como diria Truffaut, o responsável por esta teoria, todos os autores possuiem as suas obras menores, ebora deixem sempre a sua marca nas obras que realizam.
abraço cinéfilo
paula e rui lima

Cataclismo Cerebral disse...

Sim, as marcas autorais estão lá. O todo é que não satisfaz, infelizmente. Desde que ele não se ponha a assinar filmes incaracterísticos está tudo bem...

Abraço

Hugo disse...

Tb achei que o filme ficou bem abaixo do nível da série.
Mann tem grande talento para imagens e estilo, mas aqui faltou conteúdo, assim como vc escreveu.

Abraço