segunda-feira, 12 de maio de 2008

Donnie Darko (2001)

O Fabuloso Destino de Donnie Darko

Quase não dá para acreditar que Richard Kelly, na altura com apenas 26 anos, tenha conseguido criar nesta sua primeira experiência enquanto argumentista e realizador de longas-metragens uma obra onírica desta envergadura. Naturalmente influenciado pela mente transgressora de David Lynch, Kelly consegue a proeza de ultrapassar qualquer barreira de academismo e de nunca reduzir o seu trabalho a um objecto de mero copismo exacerbado. Pelo contrário: o jovem realizador manobra com enlevada astúcia e objectividade um argumento complexo e veicula em todo o projecto a sua voz pessoal, o que lhe granjeou de imediato o respeito, um pouco por todo o Mundo, dos apreciadores de fenómenos de culto (e este é um dos títulos que melhor se identifica com esse cunho).

Filme-farol de profundeza anímica para todos os adolescentes pensantes que se recusam a diminuir aos padrões moralistas que a televisão promove de forma tão pueril, Donnie Darko foi também uma aposta por parte de Drew Barrymore, que para além de entrar como actriz, investiu na produção deste indie. Donnie Darko escalpeliza o percurso assombroso de um jovem esquizofrénico paranóico que é assaltado pela presença de um assustador coelho gigante chamado Frank, que lhe profere mensagens de índole apocalíptica. Perdido no seu próprio caos mental, Donnie tem de equacionar essa informação perturbadora com o irromper do conceito de viagem no tempo e com os destinos daqueles que mais ama.

Explicar detalhadamente a narrativa seria criminoso, tanto mais que esse exercício está interligado com uma interpretação pessoal activa. Kelly não receia a diversidade de géneros que convoca (e mostra ter unhas para tocar guitarras tão eclécticas, já que faz resplandecer o drama, a ficção-científica, a comédia, o melodrama e o thriller de forma excelsa) e filma a sua história com uma mestria tal que consegue invocar a essência dos anos 80 com a maior das facilidades. Repito: o realizador invoca literalmente essa década, não se fica apenas por um retrato mais ou menos superficial. Assim, chegam até nós os sons, as ambiências, o way of thinking e o estilo que caracterizaram esse tempo já longínquo. Até apetece dizer que Donnie Darko, pelo seu look retro, parece um filme saído directamente dos late 80's.

Bizarro e triste, este argumento com lampejos surreais vai dando conta da caminhada lírica deste teen-mártir, brilhantemente desempenhado por Jake Gyllenhaal (um dos jovens actores norte-americanos que melhor combina talento com faro artístico). O seu Donnie vai, afinal, construindo laços afectivos com aqueles com quem se cruza, marcando indelevelmente o rumo/espírito dessas pessoas, ao mesmo tempo que desmascara a hipocrisia e o marasmo reinantes no espaço social onde se move. O actor compõe a personagem com um perfeito manancial de sentimentos e com uma precisão fabulosa, pois consegue gerir bem a melancolia e a vibração interior da sua personagem (sem nunca cair naquele erro confrangedor chamado "boneco").

Inacreditável é o facto de um filme com um orçamento limitado conter cenas com efeitos especiais tão credíveis, que não só não prejudicam o todo como conferem uma sensação de estranheza arty. No plano sonoro, estamos também muito bem servidos com as presenças carismáticas de Echo & The Bunnymen, Duran Duran e Joy Division, só para citar alguns. A música, para além da sua função de desenvolvimento narrativo, ajuda a estabelecer a mood correcta nas cenas em que está presente. O grande totem neste campo é sem dúvida a fantasmagórica cover de Mad World (dos Tears For Fears), que Gary Jules levou a bom porto. A letra funciona como uma extensão dos pensamentos soturnos de Donnie. Contemplativo, depressivo e fascinante!


Classificação: 4/5

7 comentários:

looT disse...

"Contemplativo, depressivo e fascinante!"

Nem mais, um filme de culto sem dúvida.
Já agora foi também um regresso do Patrick Swayze que tem um papel hilariante.

Abraço

blueminerva disse...

Faz parte do meu top 10. É pra mim uma obra-prima.
"The dreams in which I'm dying are the best I've ever had."
E é, como tu tão bem rematas, contemplativo, depressivo e fascinante!
Um abraço

Hugo disse...

Sem dúvida uma obra-prima, dificilmente o diretor Richard Kelly conseguirá manter o nível em seus próximos filmes.
Donnie Darko é uma experiência magnífica.

Abraço.

Rosa disse...

Concordo com o Hugo, Donnie Darko é acima de tudo uma experiência, no seu sentido mais laboratorial. Foi assim que o senti quando o vi pela primeira vez, da segunda e finalmente da terceira vez, tempo em que o declarei um dos filmes da minha vida.

Cataclismo Cerebral disse...

Loot: Obrigado. Pois é, o Swayze regressou pela porta grande na pele daquele guru.

Blueminerva: Essa parte da música diz tudo, não é? Belo filme para integrar um TOP 10 ;)

Hugo: Tens razão, tenho algum receio que ele seja apenas um one hit wonder... :(

Rosa: É uma experiência magnetizante, isso sem dúvida. O Donnie Darko é um caso feliz de filme de culto que entrou rapidamente para as listas de preferência de muita gente.

Abraços

Betty Coltrane disse...

um dos, senão "o" filme da minha vida...

Cataclismo Cerebral disse...

Bela escolha ;)