sexta-feira, 23 de maio de 2008

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull - Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008)


No ano de 1957, em plena Guerra Fria, Indiana Jones volta ao hábito. Desta feita, o destemido arqueólogo e erudito professor universitário envolve-se em confrontos com temíveis agentes soviéticos (liderados pela tirânica Irina Spalko) enquanto busca a Caveira de Cristal de Akator, um objecto arqueológico muito apetecível. Ao lado do Dr. Jones encontram-se Mutt Williams(um jovem rebelde que mescla Elvis Priesley e o Marlon Brando de The Wild One) e a regressada Marion Ravenwood, que irão partilhar com o famoso arqueólogo uma aventura recheada de perigo, imprevisibilidade e acção.

Primeiro aspecto a ressalvar: nunca fiz nem nunca farei parte da franja de detractores de Steven Spielberg, que vilipendia (de forma muito injusta, a meu ver) o realizador pela sua nobre capacidade de criar obras de qualidade eminentemente populares. Segundo aspecto a ressalvar: a verdade é que os espectaculares resultados conseguidos por Spielberg com os três primeiros filmes da saga Indiana Jones (que energicamente revitalizaram o género de aventuras e estabeleceram a iconografia de um herói carismático) não se repetem neste novo tomo, que desilude em toda a linha. Vejamos: o argumento padece de uma fraca exploração, o conceito de ameaça foi por água abaixo, muitas cenas roçam involuntariamente o ridículo e algum do realismo presente nas sequências de acção de outrora é substituído pelo CGI mais desalmado destes dias do nosso descontentamento. Fica a triste confirmação: nem sempre é saudável ressuscitar um imaginário que já foi convenientemente aprofundado.

Tão mau quanto isso é o confirmar que as vozes que se levantaram acusando o filme de seguir uma estrutura de jogo de computador estão mesmo correctas. Mais do que obedecer a uma linguagem estritamente cinematográfica, Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull parece esforçar-se no sentido de assegurar que possui o potencial necessário para vingar na posterior rentabilização no mercado de videojogos. Dito de outro modo: esta nova realização de Spielberg usa e abusa dos efeitos especiais em longas cenas que muito devem à estética desse universo lúdico, soando tudo demasiado a falso e a mera desculpa para desbravar novos territórios assim que o filme sair de exibição. Esta decisão é por tudo lamentável, tanto mais que a aura clássica e artesanal da saga não se conjuga com a artificialidade das imagens geradas pelas tecnologias dominantes. Este fogo de artifício digital corrompe na íntegra a essência das aventuras do lendário herói e tristemente aproxima o filme de um desses produtos rotineiros que quase todas as semanas advêm de um qualquer estúdio de Hollywood.

No campo das interpretações, o saldo também não é lá muito estimulante: apenas Harrison Ford (que volta a incarnar o Dr. Jones com a energia que lhe é reconhecida) e Shia LaBeouf se encontram a alto nível, num confronto geracional bem pensado. Karen Allen regressa mas não consegue recuperar a garra da prestação que deu no filme original; Ray Winstone é subaproveitado e John Hurt e Cate Blanchett são confrangedores. Especialmente a última, que compõe uma vilã pífia, infestada de maneirismos e possuidora de um corte de cabelo e fato mais ameaçadores que ela própria. Esta é a pior interpretação da actriz australiana, dona de uma carreira praticamente imaculada.

Apesar de num ou noutro momento mais entusiasmante surgirem as inevitáveis referências que apelam à nossa eterna cumplicidade, o facto é que este Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull se resume a um mau trabalho de revisitação, conduzido de forma indiferente por um Spielberg confuso em relação à arte do storytelling que sempre dominou com enlevada mestria.


Classificação: 1,5/5

13 comentários:

blog da pipoca disse...

Permite-me discordar com a tua crítica... E olha que eu sou um fã do herói. Não estava à espera que o filme superasse os anteriores, até porque esses são insuperáveis, mas temos aqui um filme que é puro entretenimento.

a minha nota aos filmes Jones:

Os Salteadores: 4,5/5
O Templo Perdido: 5/5
A Grande Cruzada: 5/5
O reino da Caveira: 4/5

Uma comentário mais longo no meu blog...

Um abraço

Red Dust disse...

Discordo contigo, caro Cataclismo.

O propósito, por muito mítica que seja a saga, é divertir. E isso Spielberg faz bem neste 4º capítulo.

Há alguns pecadilhos no argumento e na construção técnica do filme. Insuficientes para que resulte numa nota negativa à película.

A minha classificação: 8/10.

Abraço.

Isabela disse...

Tenho várias expectativas para esse filme, talvez em parte pelo elenco, em parte pelo tanto que Spielberg e Lucas cresceram desde o ultimo filme da saga. Porem, acho que a idade do Harrison Ford e talvez o roteiro não irão ajudar muito. Quem sabe..

Cataclismo Cerebral disse...

Blog da Pipoca: Também não esperava que este capítulo superasse os outros, mas achei-o fraco...

Red Dust: Diverte, mas nada por aí além (por exemplo, a cena na floresta entediou-me um pouco, peca por ser demasiado longa). Quanto ao argumento, está longe de ser brilhante...

Isabela: Ford e os seus 65 anos remetem para a mesma energia dos 3 filmes da saga. Nem parece que o actor já atingiu essa idade... O argumento é que tem muitas falhas.

Abraços

curse of millhaven disse...

bem, eu hj poderia ter uma opinião formada, não fosse ontém a sessão do alvaláxia estar esgotada... lol


bjinhos!

(saudades tuas **)

looT disse...

Quanto a mim tem alguns pontos negativos alguns nomeados já por ti, mas no geral diverte.
É sem dúvida nenhuma o mais fraco da saga, mas para mim leva nota positiva afinal de contas é o Indy :)

Rosa disse...

Gosto dos filmes do Indy porque é um aventureiro, porque diverte, porque tem um alter-ego geek, porque tem medo de cobras, porque tem piada e, neste último capítulo, porque já tem 65 anos e ainda tem muita classe. Acho que tem tudo a ver com expectativas. Um filme do Indiana Jones não requer grandes interpretações, mesmo que seja o que se espere dos actores envolvidos. Acho que a Cate Blanchett esteve ao nível do filme de aventuras que é, não precisava de sacar do óscar e fazer a interpretação da sua vida.

Não obstante, acho que compreendo muitos dos aspectos que ressalvaste, nomeadamente o facto de o argumento ser fraco, mas, como disse anteriormente, é tudo uma questão de expectativas ;)

Bons filmes!

Rui Luís Lima disse...

A força da magia do wonder-boy foi substituída pelo desejo de facturação no box-office e os resultados são bem visíveis...
abraço cinéfilo
paula e rui lima

Cataclismo Cerebral disse...

Curse: O filme anda a esgotar salas, o que demonstra a sede do público pelas aventuras do senhor Indiana. (saudades tuas!* )

Loot: Queria ter gostado, mas o filme tem tanta coisa errada que chega a ser confrangedor...

Rosa: As expectativas estão sempre lá, embora eu faça um esforço para me livrar delas no momento em que entro na sala. Eu não esperava que a Cate fizesse a composição da sua vida, mas também não estava à espera de tão fraca prestação... O filme foi uma desilusão que até doeu.

Rui: Exactamente o que penso Rui. Desvirtuou-se por completo a essência da personagem e das suas aventuras.

Abraços

blueminerva disse...

"Tatarata Tatara Tatarata Tatara Tata"


Ainda não vi. Mas as críticas negativas imperam neste último. Indiana Jones faz parte das minhas memórias. Preciosidades intemporais.
Um abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Das minhas também. Daí a desilusão que foi este quarto tomo. Mas sempre temos os outros três para saciar a nossa sede de bons filmes de aventura :)

Abraço

querercoisasimpossiveis disse...

Não podia discordar mais. É certo que não é tão bom como os primeiros três, mas não anda assim tão longe. Quanto aos efeitos especiais, penso que o que dizes não faz sentido, precisamente por estarmos a falar de Steven Spielberg. Em relação à Cate Blanchett, é só mais um papel que ela desempenha com profissionalismo e que não é nódoa nenhuma no seu curriculum. Acho que o teu problema foi mesmo as expectativas (essas que tu dizes que fazes um esforço para te livrares), é que a idade já não é a mesma, e quer se queira quer não, os filmes do Indiana Jones, embora sejam filmes para todas as idades, acima de tudo, são para crianças entre os dez e os catorze anos. Eu gostei do filme, pois lembrei-me dos tempos em que o cinema ainda era entretenimento.

Cataclismo Cerebral disse...

O que eu quis dizer é que as aventuras de Indiana Jones dispensam este tipo de mau CGI (a essência algo ingénua da saga não se coaduna com esta massiva utilização de novas tecnologias). Para mim, a Cate Blanchett, actriz que muito estimo, vai mesmo mal e o resultado deste filme já não tem nada a ver com o entretenimento de outrora. Mais: é muito parecido com um qualquer produto rotineiro dos dias de hoje.

Abraço