segunda-feira, 28 de abril de 2008

Funny Games U.S. - Brincadeiras Perigosas (2007)

Instintos Fatais

Estranha sensação esta, a de revisitar as memórias, códigos e convulsões internas de um filme-farol imbuído de controvérsia, que marcou indelevelmente a década de 90. À partida, a ambição de Michael Haneke ( La Pianiste, Caché) em criar um remake shot-for-shot da sua própria fita de culto gerou alguns dissabores junto da comunidade cinéfila. Afinal, não seria um erro da parte do realizador querer repetir pormenorizadamente a abordagem a uma temática que já tinha sido escalpelizada de forma tão exímia, nos idos de 97? Será que corria o risco de cair num fatal exercício de modernização, boçalidade e redundância, daqueles que deixam máculas para toda uma carreira? Em abono da verdade, ambas as hipóteses poderiam ser perfeitamente validadas, tanto mais que ainda se tem em mente a péssima homenagem que Gus Van Sant prestou ao mestre do suspense Alfred Hitchcock em 1998, quando decidiu relançar (?) e actualizar (??) uma das suas obras-chave: Psycho. Mas neste caso específico, sabendo que no controlo encontrava-se Michael Haneke a reinventar Michael Haneke, as esperanças alcançaram novos horizontes e a promessa de uma obra de qualidade já se avistava ao longe.

E chega agora a confirmação plena! Funny Games é desde já um dos filmes maiores deste ano, uma certeza absoluta no que diz respeito ao talento sem fronteiras do realizador alemão e uma certificação da notável capacidade de se operar na perfeição sobre material já trabalhado (os resultados deviam ser sempre assim...). A premissa deste filme minimalista é lacónica: um casal e o seu filho menor dirigem-se para a pacata casa de férias, com o objectivo de aproveitar algum tempo de qualidade em ambiente familiar. Lá chegados, recebem de imediato a visita relâmpago de dois jovens aparentemente educados e respeitadores, cujas intenções não se conseguem vislumbrar ao certo. À medida que a interacção se vai desenrolando, os jovens começam-se a insinuar e a revelar a suas personalidades psicóticas, obrigando então a família a participar numa série de jogos maquiavélicos e doentios.

Com este projecto, Michael Haneke pega na sua agenda temática e faz questão de realçar novamente o modo como o medo e a violência são percepcionados nas sociedades contemporâneas (com uma pequena-grande ajuda por parte dos mass media), onde cada vez mais a realidade, a ficção e a componente de "fascínio culpado" se cruzam de forma indescritível. O realizador é um provocador por excelência, e parece não ter problemas com isso: basta entrar em contacto com a essência de alguns dos seus filmes para compreender isto rapidamente. Ele é alguém que formata as imagens de tal forma que pode dar a ver a mais cruel das perturbações íntimas com a maior das austeridades formais, criando um paradoxo arrepiante. Para lá desta forma de "trocadilho" visual, Haneke esforça-se sempre por manipular/seduzir/culpabilizar o espectador a seu bel-prazer, dando-lhe a certeza de que ele é um joguete nas suas mãos e incentivando-o a querer ver mais, para além dos limites auto-impostos. Assim, no seu cosmos particular, não só se colocam em cena as mais desconcertantes problemáticas da moral, como se impõe ainda à audiência um genuíno desafio à confrontação com os seus verdadeiros desejos.

Contando com um elenco, no mínimo, visceral (Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt e Brady Corbet são assombrosos), o cineasta alemão consegue demonstrar que mesmo em modo auto-copista é capaz de atingir a magnificência cinematográfica. E de despertar os sentimentos brutais de outrora, que já se encontravam devidamente aplacados. Este seu esforço de transpor para a realidade americana o conteúdo chocante do filme original é de louvar, embora a recepção crítica não tenha sido de rasgados elogios. Mas também o que se pode esperar de um iconoclasta inconformado por natureza? Certamente que o consenso crítico não faz parte da lista.


Classificação: 5/5

11 comentários:

Gooffy007 disse...

Embora não chamasse, tão impulsivamente, a este Funny Games brilhante, penso no entanto que é um filme poderoso, inesquecivel e provocador de reflexão profunda.

Não me parece também que traga algo de novo relativamente ao primeiro ensaio, daí questionar a mais valia intrínseca deste retorno a um caminho já trilhado por Haneke.

Anônimo disse...

O que significa "um elenco visceral"?

Ricardo disse...

anónimo é um elenco do "supra sumo da batata"! Tenho de ver os dois filmes!

José Quintela Soares disse...

É sempre ingrato fazer um "remake" de um grande sucesso, mesmo que entre as duas versões exista um lapso de tempo considerável.

Na esmagadora maioria, o "original" é melhor e não é suplantado pela segunda versão.

Ainda não vi este filme.
Aguardo.

Abraço.

Cataclismo Cerebral disse...

Gooffy007: Pode não marcar pela originalidade, mas superou as minhas expectativas. Estava com receio que não me despertasse os sentimentos que o original activou, mas afinal não havia nada a recear. Se este esforço criativo conseguir causar algum impacto na sociedade americana a médio/longo prazo, então terá valido a pena ;)

Anónimo: É um elenco com uma profundidade perturbadora...

Ricardo: Faz-te aos filmes, que tens obras-primas à tua espera!

José: O risco é sempre enorme. Não só o projecto pode resvalar para o ridículo, como ainda pode prejudicar a alma da obra original. Apesar de continuar a preferir o filme original (o primeiro amor nunca se esquece), este não tem nada de que se envergonhar. É o que eu penso...

Abraços!

Isabela disse...

Quero muito ver esse filme.

Cataclismo Cerebral disse...

É um excelente filme, faz um bom par com o original.

Ela disse...

Eu vi o filme a outra noite. Eu realmente não esperava qualquer outra coisa semelhante. Era assim que para prestar atenção duramente por causa de assim muita tensão. e ainda eu apenas não poderia fazer exame de meus olhos dela. Eu QUIS SABER O QUE ESTAVA INDO ACONTECER.

Eu gostei realmente da cena quando põe sua mão sobre o injetor e as matanças sobre dos guys. Isso deve do sido o fim do filme. Era maneira a forte morrer como aquele. E como sobre seu marido? Sua criança..

Filme impressive, eu devo dizer.

Enthilza disse...

Ainda não vi o original, mas devo dizer que achei este simplesmente brilhante.

Não podia concordar mais com esta tua review. Acho divertido observar que muita gente se sente roubada com este filme, principalmente pelo rewind, mas aí é que está a genialidade com o filme que, como disseste e muito bem, joga com o espectador e aquilo que este esperaria normalmente de um filme.

Quanto à questão que há por aí; se valia a pena ter feito um remake. Como já disse, não vi o original, mas acho que faz todo o sentido que Haneke tenha sentido que era a altura perfeita para re-lançar este filme, pois com todos os Saw, Hostel e afins dos dias de hoje, o público americano actual precisava de algo que lhes abrisse os olhos.

Cataclismo Cerebral disse...

Brilhante comentário, Enthilza. Concordo com a importância de se relançar um filme desta génese; o seu terror incomoda porque é feito com realismo e inteligência. Este não difere muito do original, o que diz bastante sobre a qualidade da obra de 1997.

Fica bem

Anônimo disse...

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