
Once é um daqueles pequenos grandes filmes com uma alma tão vibrante que nos conquistam sem estarmos à espera. Aplaudido pela crítica, este projecto forjado no seio independente e realizado por John Carney adquiriu o estatuto de culto instantâneo e, de facto, merece-o na sua totalidade. O filme foi uma das grandes surpresas do ano na cerimónia dos Óscares, ao vencer na categoria de melhor canção original com o tema Falling Slowly (as estatuetas foram entregues aos compositores e intérpretes, Glen Hansard e Markéta Irglová, que são também o par protagonista da fita).
Once é um conto urbano e contemporâneo que revisita a matriz do musical, renegando a habitual componente onírica e espectacular desse universo. Sem recorrer a artifícios decorativistas e de realização, Carney leva o seu filme para o domínio do realismo, criando uma espécie de "musical de rua" habitado por pessoas comuns, que padecem dos problemas do quotidiano. O argumento baseia-se na visão realista e esperançosa de duas pessoas (das quais nunca ficamos a saber o nome) que encontram um elo em comum: a paixão pela música. Ele é um trintão que toca e canta nas ruas de Dublin por umas simples esmolas, acalentando o desejo de assinar um contrato discográfico; ela é uma emigrante checa, divorciada e mãe de uma menina, que se exprime através do piano e das cantorias. Entre eles nasce uma amizade muito especial, em que a música é a figura principal, com poder suficiente para fazer com que estas almas gémeas alimentem a esperança mútua e ultrapassem algumas agruras da vida.
A crueza da realização confere ao filme uma nota de voyeurismo muito convincente, sem que isto signifique que impere a banalidade emocional. Na verdade, o par central é composto por não-actores, mas isso não se pressente no filme, tanto mais que ambos se entregam honestamente aos seus papéis. O que resulta é uma química intensa que não perde nada na comparação com o trabalho de actores bem experientes. Para além disto, a banda-sonora que atravessa Once é um mimo viciante, que dá vontade de ir a correr comprar o disco. Compensando os poucos diálogos, as músicas destacam-se pela excelente qualidade das letras e pela transparência com que fazem sobressair as belas vozes que as interpretam.
Como quem não quer a coisa, surge assim um musical que realmente reinventa o género, primando pela simplicidade e dando um brilho especial a pessoas com quem já nos cruzámos de certeza. Basta ir na rua e abrir os olhos. Melhor: basta abrir o coração e deixar a música fluir.
Classificação: 4/5
8 comentários:
Já está em dvd? Por favor diz-me que sim, decorei cada segundo do trailer deste filme quando o vi no extinto "Pasmos Filtrados" e fiquei cativada, eu que nem sou muito dada a musicais.
Beijinhos!
estou tb mt curiosa em relação a este filme. parece ser a minha cara :)
Acho que vão gostar, quase que posso apostar ;) Não existe edição de DVD em Portugal, mas ainda há uma esperança de que o filme consiga chegar a algumas salas. Por agora, só mesmo duas opções: importar o DVD ou vê-lo através da net (que foi o que eu fiz :S).
:)
Estava com medo que a minha crítica prometesse demasiado e saísses desiludido...ainda bem que gostaste!
Quanto à banda sonora, desde que vi o filme ainda não saiu do mp3...
Abraço!
Já tinha grandes expectativas para o filme e a tua crítica conseguiu aumentá-las. Depois houve confirmação: é muito bom sim senhor!
Abraço
não gosto de musicais. mais sei que este promete. é musical, mas é natural. peço imensa desculpa aos fãs do género, mas este não é parvo. estou super curiosa por descobri-lo. não vai faltar muito.
Também tenho muita curiosidade em relação a este :)
Abraço
Anna: Recomendo o filme, mesmo sabendo agora que não és fã. Sim, é muito natural e foge ao lado espectacular que caracteriza o género.
Loot: É bem bom. Quando o apanhares, não lhe resistas!
Abraços
Postar um comentário