terça-feira, 22 de abril de 2008

I'm Not There - Não Estou Aí (2007)

Os Fragmentos de Bob

Bob Dylan está aqui mas também não está. É o que apetece dizer depois de se estar em contacto com o mais recente projecto de Todd Haynes. De facto, Haynes confirma taxativamente que é alguém que não receia o lado experimental na sua peculiar cinematografia, e muito menos está disposto a deixar passar o comboio da originalidade. Transpor para um filme formalmente arriscado a personalidade complexa do músico Bob Dylan é como atirar um peixe para dentro de água: os 'conceitos' encaixam-se bem. Se ainda por cima tivermos em conta que para interpretar esta lenda viva do rock 'n' roll o realizador recorreu à ajuda de seis actores (entre eles uma mulher, fabulosa Cate Blanchett, e um jovem actor negro) o projecto assume ainda mais a sua condição bizarra. E a coisa resulta, se bem que não impressione por aí além...

I'm Not There (o título de um dos temas de Dylan) é a recriação da vida e obra do ícone, durante várias décadas e múltiplos estados de alma. Escalpeliza-se a aura mitológica, a atribulada intimidade da estrela, as suas origens e as nem sempre pacíficas relações com os media. Tudo com a cumplicidade vital desse pano de fundo que é a música (como não podia deixar de ser). Procurar aqui os traços típicos de um biopic é tarefa que não leva a bom porto, pois o filme aliena-se dessas estruturas convencionais e funde as diversas vinhetas como bem entende. Há avanços temporais, recuos bruscos e cabe aos espectadores a ingrata tarefa de juntar as peças do puzzle. O filme pede muita disponibilidade a quem o vê, para além do óbvio requisito de se conhecer minimamente o percurso artístico e pessoal da persona que aqui é retratada.

A alguns dos actores calhou-lhes na rifa mais sorte do que a outros, já que representam épocas que estão sobejamente consolidadas na memória popular. Cate Blanchett é quem mais se destaca não só por estar relacionada com este aspecto, mas por ter uma interpretação avassaladora e por ser... uma mulher! A actriz gere magistralmente bem a sua composição, sem se deixar influenciar pelas facilidades dos maneirismos. Quando ela surge no ecrã, acreditamos piamente que é Bob Dylan que ali está materializado. Esta opção de carreira poderia prejudicar-lhe caso o saldo não fosse muito estimulante, mas não há nada a temer: Blanchett não só dá conta do recado como também arranca a melhor performance do filme. Christian Bale e Heath Ledger (num dos seus últimos papéis) encontram-se também eles a voar a alto nível.

Se ao nível do cast e da organização formal o resultado prima pela excelência, já no que diz respeito à construção dramática as coisas não são tão brilhantes. O esforço por uma constante originalidade trai um pouco a essência apelativa do filme, já que, a espaços, o ritmo quebra-se e a atenção dispersa-se. Como já referi em cima, I'm Not There pede muita disponibilidade, e o factor 'duração' também não ajuda (são mais ou menos 2h15 de fita, com algumas partes dramaticamente redundantes, para ser sincero). No geral, o filme é prolixo, nunca dando a conhecer o verdadeiro Bob Dylan, apenas os seus traços de personalidade. Por isso mesmo, esta é uma daquelas fitas de construção individual, que será percepcionada de diversas formas pelos diferentes espectadores; cada visionamento será único e susceptível de alterar a opinião formada anteriormente. Está-se, portanto, numa interessante matriz de mutação que se correlaciona com a(s) faceta(s) do insondável artista...


Classificação: 3/5

15 comentários:

Gooffy007 disse...

Um grande filme de facto, a Cate está simplesmente genial.

Destaco ainda o brilhante e até surprendente desempenho de Gere num Dylan mais privado e intimista.

JHB disse...

O maior mérito que lhe dou é não ir pelo caminho das biopics habituais, que é preciso dizer-se começam a enjoar (nem todas obviamente, veja-se o excelente Control), e o enorme esforço de fazer qualquer coisa de diferente. Mas como tu não lhe daria nota superior a 3.
Quanto às interpretações não há como fugir ao brilhantismo de Blanchet, a quem se juntam Bale e Winshaw, não realçaria tanto o Heath Ledger como tu. Quanto ao Richard Gere do comentário aqui de cima devo dizer que não fez nada que eu não esperasse dele, e isto não é um elogio... Opiniões.

Grande abraço Cataclismo, tenho passado por aqui muito como sempre, ao tempo que não comentava.

blog da pipoca disse...

Um filme feito à base de boas interpretações, mais do que a história... Como tu tb daria 3/5...

Se quiseres perder um minuto vai a www.revoltadapipoca.blogspot.com votar no melhor CSI.

Rosa disse...

"esta é uma daquelas fitas de construção individual, que será percepcionada de diversas formas pelos diferentes espectadores; cada visionamento será único e susceptível de alterar a opinião formada anteriormente" mas não é esta a maior genialidade? quanto a mim, é.

Cataclismo Cerebral disse...

Gooffy007: O Gere também está muito bem, é verdade. Mas a Cate eclipsa tudo e todos...

Jhb: Também gosto que o filme tente ser original, mas exagera um pouco nesse sentido

Blog da Pipoca: É claramente um filme de actores. É um paraíso para as interpretações!

Rosa: Então, claro que é um grande feito! É uma das mais valias do projecto, o facto de sermos nós a "construir" o nosso próprio filme. Atenção que quando escrevi essa afirmação não lhe coloquei nenhum sentido negativo, bem pelo contrário...

Abraços!

looT disse...

"esta é uma daquelas fitas de construção individual, que será percepcionada de diversas formas pelos diferentes espectadores; cada visionamento será único e susceptível de alterar a opinião formada anteriormente"

Concordo, no caso do Velvet Goldmine eu vi o filme com poucos conhecimentos do mundo do glam rock e adorei. O filme fez-me querer conhecer mais e hoje Bowie é um dos meus artistas predilectos. Agora quando vejo o velvet Goldmine vejo-o com uns olhos mais conhecedores mas sei que mesmo conhecendo pouco é possível adorá-lo e no caso do "I´m not There" já não tenho tanta certeza, mas talvez seja possível. Não sei porque eu já tinha algum conhecimento da vida de Bob Dylan e não faço ideia se o filme irá agradar a alguém que desconheça por completo quem é/foi/poderia ter sido Bob Dylan.

O que posso dizer é que salientaste um ponto interessante e que este é sem dúvida um filme a rever. Por enquanto eu gostei :D

Abraço

José Quintela Soares disse...

Uma enorme actriz num desempenho para a história.

blueminerva disse...

Não vi ainda... mas tenho imensa curiosidade em visionar, quanto mais não seja para ver a prestação da Sra Blanchet que é soberba em todos os trabalhos que participa.
Um abraço

Maria del Sol disse...

Mais uma vez o teu texto sintetiza com muita acuidade o espírito do filme (o que, numa obra tão fragmentada como esta, tem muito mérito).
Tal como tu, apontar-lhe-ia como defeito a duração, excessiva, bem como a discrepância entre as qualidades performativas das várias personagens e que sublinha alguns momentos de redundância no argumento(o contraste mais visível, a meu ver, estabelece-se entre a transfiguração absoluta de Cate Blanchet e a insipidez de Richard Gere).

De resto, agradou-me e mesmo não sendo um "biopic" para leigos no universo de Dylan, não deixa de ser interessante.

Beijinhos!

Isabela disse...

Sem duvidas conta na minha lista de filmes para assistir, ainda nao deu foi tempo!

Cataclismo Cerebral disse...

Loot: Lá está, também gostei mas queria ter gostado mais. Acho que se torna um filme difícil para quem não conhece bem Bob Dylan. Torna-se mais complicado de apreciar do que no caso de Velvet Goldmine.

José: A Cate brilha sempre a grande altura. E este desempenho é mais uma pedra-basilar na sua carreira...

Maria: Obrigado ;) A duração do filme é mesmo um passo atrás, e a questão das discrepâncias a nível de interpretação é um tópico interessante (embora no geral o saldo seja francamente positivo). Acredito piamente é que o filme não satisfará quem não simpatiza minimamente com a persona invocada.

Isabela: Há tempo para tudo ;) Apesar de não o ter adorado, aconselho uma vista de olhos. Vale bem a pena!

Abraços!

Ana disse...

só quero fazer notar de que, mesmo tendo conhecimento mínimo de Bob Dylan, o que vi devorei por completo, saindo embriagada, de barriga e de mente cheia da sala de cinema.

"já que, a espaços, o ritmo quebra-se e a atenção dispersa-se."

o filme transcende o espaço -- a única ligaçao importante que o filme provide são os sentimentos contínuos que se tem (ou que se devia ter) ao ver aqueles bocados, aquelas imagens de arte, é isso que torna a obra coerente. e foi isso que me manteve ligada ao filme, durante todo o seu tempo de fita.

"No geral, o filme é prolixo, nunca dando a conhecer o verdadeiro Bob Dylan, apenas os seus traços de personalidade."

mas era exactamente esse o objectivo! quanto menos conheceres sobre o artista, mais única é a maravilha que sentes, mais perdura o mistério que alicia. apenas por teres presenciado flashes do que poderá ser a grandiosidade de bob dylan. mas mais vale não querer ter a certeza, e continuar a viver no deambulo da imaginação.

Cataclismo Cerebral disse...

Olá Ana!

Eu disse que a espaços (ou seja, de tempos a tempos) o filme perde ritmo. Não me estava a referir à noção de espaço...

"No geral, o filme é prolixo, nunca dando a conhecer o verdadeiro Bob Dylan, apenas os seus traços de personalidade."

Se ler até ao fim do parágrafo, percebe que digo que esta opção é interessante, porque permite novas descobertas a cada visionamento.

Abraço

querercoisasimpossiveis disse...

Cataclismo, não me leves a mal, mas conheces alguma coisa de Bob Dylan?

"Está-se, portanto, numa interessante matriz de mutação que se correlaciona com a(s) faceta(s) do insondável artista..."

Meaning: não conheço a ponto dum corno, mas sei que devia conhecer, embora não consiga sequer gostar ou compreender, mas vou escrever estas frases que não querem dizer nada, para que o pessoal que aqui vem (e que também não conhece nada) pense que eu conheço alguma coisa quando não sei do que estou a falar, etc, etc, etc.

Porra: nem a merda de uma música foste capaz de mencionar. Afinal o filme era sobre quem?

Mais: comparações com o Velvet Goldmine? Poupem-me.

Cataclismo Cerebral disse...

Sim, conheço "coisas do Bob Dylan. Agora pergunto: serei obrigado, numa crítica a um filme, a fazer referência a uma música dele? Para quê, para mostrar que fiz o "trabalho" de casa?

Quanto à frase, basta ler o parágrafo para percebê-la: o filme é daqueles cuja interpretação se altera a cada visionamento. Essa 'mutação' relaciona-se com as facetas do próprio Dylan (uma personalidade que ao longo das eras forneceu diferentes perspectivas sobre o seu verdadeiro eu).

Fica bem