quarta-feira, 18 de junho de 2008

The Happening - O Acontecimento (2008)

Um Infeliz Acontecimento

Para mal dos seus pecados, M. Night Shyamalan ficou para sempre preso numa redoma alicerçada pelo público, que se arrepiou no final dos anos 90 com o excelente The Sixth Sense e que ficou completamente embasbacado com o já célebre twist final. Desde então, o seu percurso tem-se pautado por obras de grande qualidade, que reflectem sobre temas universais e que contemplam uma visão singular e desencantada sobre as características da actual nação americana.

No entanto, esses títulos não conseguiram repetir a espectacular adesão obtida pela obra de 1999. É a triste sina deste grande cineasta: embora o seu currículo esteja repleto de obras cada vez mais fabulosas, a verdade é que parece que o seu trabalho só será tido em conta se apresentar uma reviravolta que deixe meio-mundo de boca aberta. Efeitos colaterais (e esmagadoramente perversos): a forma profunda e inteligente como Shyamalan mergulha nos seus temas, as simbologias ávidas de descodificação e o rigor magnetizante da sua realização são injustamente marginalizados.

The Happening orquestra o conceito de paranóia generalizada que se instaurou no seios dos EUA no pós- 11 de Setembro. The Village já tinha abordado este tema na perfeição, se bem que de uma forma mais subtil. Nesse caso, tratava-se de uma alegoria assombrosa sobre o medo colectivo, a alienação auto-imposta, o amor incondicional e um clima de ameaça permanente. Neste novo filme, Shyamalan pega na temática ambiental (que cada vez mais é um assunto na ordem do dia) e encena uma parábola algo desconcertante sobre a revolta e consequente vingança da Natureza contra o Homem, após os actos prejudiciais cometidos pelas mãos deste. No limite, The Happening reinventa a velha moral que diz que degradar o meio ambiente é o equivalente a destruir progressivamente a nossa própria existência.

Este thriller ecológico nutre-se do espectro de Hitchcock para recriar o modelo de terror inexplicável que o mestre tão bem soube gerir no majestoso The Birds. Shyamalan ainda nos sabe arrepiar como poucos, mesmo que esteja a trabalhar com parcos recursos. O poder de sugestão deste filme é a sua mais-valia: tudo é relevante, até o mais pequeno pormenor; certos planos destilam uma aura maquiavélica que incomoda; o vento, as nuvens, as plantas e os sons colocam os nervos do espectador em sentido. Este encontra-se sempre em busca de uma justificação racional para a ameaça devastadora que se vai alastrando. O modo de realização, que se aproxima do espírito clássico, intensifica o medo e o envolvimento com a história, só que infelizmente o filme nunca chega a deslumbrar.

A premissa é bastante sugestiva, mas com o desenrolar da narrativa percebe-se que Shyamalan está a operar sobre material dramático muito escasso, restando-lhe apenas ceder a alguns truques visuais para impressionar. Ou seja, as mensagens que se pretendem veicular são interessantes, mas o resultado final não é apelativo o suficiente para se implantar na nossa memória. Sente-se sobretudo a falta das ressonâncias morais, religiosas e românticas que imperaram nas suas obras anteriores e que nos acompanharam muito depois do visionamento desses filmes.

The Happening deixa um certo desencanto no ar, uma sensação de vazio, apesar de ser um entretenimento razoável. A frustração inflama-se quando se chega à conclusão que alguns momentos nesta fita são decalcados de outros títulos marcantes da filmografia do cineasta indiano. Este factor 'colagem' não só é decepcionante como parece indiciar que Shyamalan se alienou de alguma da sua garra criativa. Algumas cenas desnecessárias (para não ter de dizer ridículas) também não ajudam à festa.

A escolha do par protagonista é sofrível: tanto Mark Wahlberg como Zooey Deschanel constituem erros de casting. Para além de serem actores dramaticamente limitados, a química entre ambos nunca funciona como seria de esperar. Por seu lado, a banda-sonora atmosférica e arrepiante triunfa por completo, fazendo-nos recordar a arte de bem manipular as emoções. Enfim, resta esperar que o realizador regresse ao seu pulso natural. É que The Happening está mesmo a anos-luz da qualidade dos seus trabalhos. E não espelha totalmente o enorme talento que reside neste génio do cinema contemporâneo.


Classificação: 2/5

14 comentários:

Isabela disse...

Eu queria muito assistir esse filme, mas pelo visto é mais um dos filmes mal sucedidos do Shyamalan. Uma pena!

gonn1000 disse...

Finalmente consegui vê-lo e concordo que não é o melhor dele, mas está longe de ser o pior. Gostei, embora não tenha ido muito confiante dadas as reacções díspares, não fiquei desiludido mas é verdade que não deslumbra tanto como poderia. Tem de facto menos recursos que os anteriores mas essa proximidade assumida à série-b acaba por jogar a seu favor.
Fica bem

curse of millhaven disse...

ooooh... ainda assim quero mt ir ver!

Hugo disse...

Apesar das críticas ruins pretendo assistir em breve, apesar dos altos e baixos, Shyamalan pelo menos é um cineasta original.

Abraço

blog da pipoca disse...

Felizmente que eu não sou influenciável no que respeita as críticas. Só ainda não o vi porque não está nos cinemas da cidade onde moro. Terei de ir até Coimbra para o ver. Mas espero um bom filme, pois Shyamalan já me habituou ao melhor. E toda a gente tem o direito de falhar, como no caso de Lady In the Water. Mas todos os outros são de uma qualidade superior.

TOP Shyamalan:

1º The Village
2º Signs
3º Sixth Sense
4º Unbreakable

Todos estes filmes são de nota minima de 4/5.

Fifeco disse...

Pois, apesar de já termos "discutido" isto insisto na ideia que não é um mau filme. Acho que a desilusão dos fãs supera a capacidade de isenção. No entanto, a verdade é que Mark Wahlberg é mesmo bastante mau. Penso que Zooey Deschanel não está assim tão mal. É uma prestação razoável.

Abraço

Betty Coltrane disse...

Eu gostei bastante!!

concordo que a linha narrativa é fraquinha, mas isso não me incomoda muito... hehe

dar-lhe-ia uma pontuação mais alta, mas isso sou eu



uma beijoca, lindo!

JHB disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cataclismo Cerebral disse...

Isabela: Não é horrível, mas desilude...

Gonn1000: Tem coisas boas, mas no final deixou-me uma sensação de vazio. Parece que Shyamalan não teve muito para dizer. O tom de série b foi uma boa opção, de facto.

Curse: Força e depois quero saber o que achaste ;)

Hugo: É original e muito inteligente. Sempre o respeitei e continuo a respeitar.´

Blog da Pipoca: Concordo com o TOP. As críticas não são para ser seguidas religiosamente; são apenas a expressão de alguém. Nada como nós para avaliar as coisas...

Fifeco: A Zooey é muito bonita, mas acho que vai memso mal neste filme. O Wahlberg só vem provar aquilo que sempre achei dele: que é um autêntico canastrão...

Betty: Queria ter gostado mais, confesso. Vou esperar pelo próximo filme dele! Bjocas linda ;)

Jhb: Shyamalan sabe 'espremer' bem o 'sumo' de cada imagem, mas infelizmente The Happening não conduz a um resultado particularmente estimulante. Tem boas coisas lá dentro, mas também tem muitas fragilidades que que lhe quebram o interesse...

Bjs e abraços

M. disse...

ele poderia ter feito tanto tanto com o filme e não o fez. fraquinho fraquinho. falta deintensidade entre o casal. continuo ar espeita-lo porque a vila até hoje me toca.
*

blueminerva disse...

Vi todos os filmes de M. Night Shyamalan e a minha preferência é "The Village". Ainda não vi esta última película mas não vou deixar passar.
Um abraço

Cataclismo Cerebral disse...

M. e Blueminerva: A Vila continua a ser a obra-prima de Shyamalan. The Happening, mesmo não sendo horrível, desilude bastante... Mas aconselho sempre o visionamento; neste caso até mais porque a maioria das reacções tem sido positiva.

Abraços

looT disse...

Eu gostei muito do filme e concordo totalmente com os teus primeiros parágrafos.

Curiosamente o Sexto sentido não é dos meus favoritos dele, prefiro o Unbreakble. Claro que o factod e me terem contado o final do filme pode ter ajudado.

TALVEZ SPOILER
Também acho que muitos estão sempre à espera do seu famoso twist final e saem decepcionados se não o tiver, é uma pena porque um filme não tem de ter sempre um twist e the happening não tem, aliás no início do filme na cena da aula quando eles focam a situação das abelhas e de que às vezes não conseguimos explicar os fenómenos da Natureza, era claro que isto ia ter importância, era óbvio que estava ligado, mas não é por isso que ol filme deixa de ser bom, gostei muito e as cenas de suícidio e toda a atmosfera aterrorizante estão magníficas.

Abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Loot: O Unbreakable é o filme dele que menos gosto. Nunca me hei-de esquecer da surpresa que foi aquela reviravolta no final do Sexto Sentido; fui ao cinema sem saber de antemão a grande revelação do filme e tinha 15, 16 anos. Marcou-me, sem dúvida. Mas concordo absolutamente com a tua questão relativamente aos twists: os filmes de Shyamalan não têm obrigatoriamente de ter todos um twist nem um filme se pode reduzir a uma reviravolta mais ou menos espectacular. Há coisas bem melhores a ter em conta nesse todo.

As cenas iniciais de The Happening são assombrosas e inquietantes pelo facto de não compreendermos a situação na sua totalidade. É este modelo de terror inexplicável que falo e que é das melhores coisas que o filme tem para oferecer. Pena é que o argumento não acompanhe esta qualidade durante todo o tempo...

Abraço