terça-feira, 10 de abril de 2007

Requiem For A Dream - A Vida Não É Um Sonho (2000)

Sonhos Desfeitos

Este electrizante filme possui a inusitada capacidade de me deprimir de cada vez que o vejo (e não é fácil que algo me afecte de forma tão devastadora). Trata-se de uma obra de cunho independente, realizada pelo excelente Darren Aronofsky, que em Portugal foi lançada directamente em DVD, porque acreditava-se que não iria ter sucesso comercial se fosse exibido para o grande público nas salas de cinema. A verdade é que esta condição mais ou menos marginal fez com que o filme ganhasse uma chancela de culto, atirando o seu realizador para o conhecimento cinéfilo internacional e tornando-o numa espécie de nova esperança para o futuro cinema americano de qualidade.

Requiem For a Dream é considerado por muitos como mais um filme que se dedica a escalpelizar os efeitos perversos do uso de drogas, mas essa visão é ao mesmo tempo redutora e cruel, pois não não faz justiça à riqueza temática e à complexidade emocional do todo. Antes de mais, este é sim um filme que espelha as várias faces do "vício" (seja o vício por drogas, comida, o "vício" da busca da felicidade, da concretização de um sonho, de querer agradar a quem nos ama e também de obter desesperadamente uma imagem que ficou perdida no tempo), mas sem nunca descambar em determinismos morais que possam descurar a relevância humana das suas personagens.

A história centra-se em quatro pessoas que vivem na ânsia de algo mais e é essa sofreguidão que acabará por conduzi-las numa espiral de decadência e dependência, na qual poderá ser difícil encontrar a luz ao fundo do túnel. Uma mãe, o seu filho, a namorada deste e o grande amigo são os seres desprotegidos de Requiem For a Dream, que se encontram à deriva num mar de tentações que se cruza indelevelmente com os seus objectivos mais imediatos. Estas almas parecem não ter direito à redenção ou a uma segunda hipótese, por mais que lutem para combater os seus fantasmas interiores. A mãe, ao ser seleccionada para participar no seu concurso televisivo de eleição, começa a consumir regularmente um colorido cocktail de comprimidos de emagrecimento, tudo para poder recuperar uma forma física que lhe permita usar um vestido vermelho de outros tempos; o filho, a namorada deste e o amigo do casal vivem diariamente em pleno marasmo, entrando e saindo de maroscas com a finalidade de angariar fundos que lhes sustentem o vício e que lhes financiem os seus projectos algo ambiciosos.

Este objecto cinematográfico extremo não apresenta quaisquer limites no que diz respeito ao conceito de choque, abalando até a alma mais imperturbável. No entanto, e apesar de todo o tormento emocional que ferve no seu âmago, o filme destila uma aura onírica que entra em contraponto com a dura realidade que encerra. Porque até numa descida vertiginosa ao Inferno é possível encontrar um recanto de Paz. O elenco é sem dúvida um dos trunfos que se rege pela excelência artística. O inevitável destaque vai para as duas senhoras, Ellen Burstyn e Jennifer Connelly, que são simplesmente assombrosas, revelando garra e determinação no abraçar de papéis arriscados que são raros no painel hollywoodesco e poucas vezes concedidos a intérpretes femininas. A primeira, uma veterana do cinema mais clássico, viu o seu desempenho ser nomeado para o Óscar de Melhor Actriz Principal; a segunda, é muito provavelmente uma das melhores actrizes da sua geração, que alia a imensa beleza a uma amplitude dramática de excepção. AO meu conselho é que descubram esta obra poderosa urgentemente, nem que seja em qualquer clube de vídeo manhoso. E que a vejam quando estiverem com a moral para cima!


Classificação: 5/5