segunda-feira, 26 de novembro de 2007

sex, lies, and videotape - Sexo, Mentiras e Vídeo (1989)

Perto Demais

Este foi o filme furor do Festival de Sundance no ano de 1989, que lançou definitivamente a carreira do seu então jovem realizador Steven Soderbergh e que notabilizou ainda mais o próprio certame. O argumento foi escrito numa questão de poucas semanas e, verdade seja dita, continua a transpirar originalidade, acutilância e inteligência, mesmo tendo passado tantos anos. Este é certamente um daqueles filmes intemporais, pela forma directa e sem concessões com que aborda um tema-choque: a sexualidade.

A narrativa gira em torno de quatro personagens fabulosas, plenas de virtudes e defeitos. Ann é uma dona de casa dos subúrbios (desconfortável na sua pele, hipertensa e sexualmente reprimida) casada com John, um advogado bem sucedido. Este mantém uma relação extra-conjugal com Cynthia, a excêntrica irmã de Ann. Para complicar a situação, chega ao bairro um antigo amigo de John, Graham, cujas atitudes e comportamento despertam a curiosidade de Ann. Esta e o novo residente do bairro começam a desenvolver uma base de confiança e amizade, fomentada através de conversas e desabafos sobre a vida, o amor e o sexo. Mas Ann ficará de pé atrás quando lhe é revelado um segredo íntimo de Graham e, principalmente, quando descobre que ele grava entrevistas com mulheres, onde estas expõem pormenores relativos às suas experiências sexuais. A partir daqui, estas quatro personalidades vão entrar em choque e a quietude de outrora vai ser posta em causa...

O filme possui uma temática ousada e consegue perturbar pela crueza e frontalidade com que encara o assunto. O que choca verdadeiramente é a brutalidade dos confrontos verbais, o grau de intimismo das atitudes confessionais, a consciência da complexidade das teias da psicologia humana e os dilemas morais propostos pelo argumento. O título é enganador, por isso quem estiver à espera de cenas "quentes" vai sair mesmo defraudado e vai passar completamente ao lado da mensagem do filme. Por outro prisma, quem estiver à procura de um drama intimista, com forte densidade psicológica, pode contar com diálogos riquíssimos e mordazes e com um elenco que está nas suas sete quintas, dando interpretações complexas que reflectem bem as personalidades e os estados de alma daquelas pessoas (principalmente James Spader e Andie MacDowell, que tinham um terreno perigoso por onde circular, mas que conseguiram ultrapassar essas dificuldades com sucesso).

Verdadeiro marco do cinema independente norte-americano (foi feito por meia dúzia de tostões e lucrou bem nas bilheteiras), "sex, lies, and videotape" é um objecto extremamente provocador, um produto da década do consumo desenfreado, que se dedica à análise de vidas monótonas, vazias e sexualmente frustrantes. Tem coragem para deixar de lado o falso puritanismo e colocar descaradamente a nú a decadência da mentalidade sexual reinante em algumas zonas dos EUA. Com a sua força meteórica consegue ainda remeter para um canto muitos filmes contemporâneos que apostam tudo em cenas ditas "arriscadas" e que descuram tudo o resto, não conseguindo alcançar nem metade do seu efeito perturbador.

Classificação: 4/5

3 comentários:

_Loot_ disse...

É um filme fabuloso, adoro-o. E é sempre bom ver James Spader num filme de grande qualidade, pois ele é um excelente actor.

Acho no entanto que este filme tem cenas "quentes", como por exemplo a fabulosa cena em que Spader filma a Cynthia, mas eu percebi o que querias dizer :P

Maria del Sol disse...

Em primeiro lugar os meus parabéns pela tua sinopse, que, sem contar todos os detalhes, concetra os dados essenciais a valorizar neste filme.
E, claro, em segundo lugar, partilho contigo a opinião de que este é um filme quase perturbador pela acutilância com que explora a psicologia humana, sobretudo na sua vertente mais sensível, a da sexualidade. Um argumento bem conseguido e actores que estão à altura do desafio, sobretudo James Spader e Andie MacDowell :)

M.Ferreira disse...

Comprei-o à pouquíssimo tempo´. Nunca tinha visto, e sinceramente tenho pena de não ter visionado mais cedo, na década certa. Achei-o agora um pouco descontextualizado, ou pegando em assuntos fortes já banalizados por esta sociedade do youtube e do voyerismo doentio.Talvez demasiado experimental.Mas, apesar disto, gostei bastante, e o par Spader e MacDowell enche-nos realmente as medidas!