terça-feira, 13 de maio de 2008

Red Eye (2005)

Pânico a Bordo

Confesso desde já que sou fã de Wes Craven. A admiração que nutro pelo trabalho do cineasta começou com essa obra-prima do terror chamada A Nightmare On Elm Street, o filme low- budget de 1984 que deu a conhecer ao Mundo um dos horror monsters por excelência (o terrível Freddy Krueger) e que meteu os nervos de muito boa gente em estado de alvoroço. Desde que entrei em contacto com o seu universo hermético (isto ainda em miúdo) que acompanho as suas pegadas, embora actualmente o fulgor criativo de Craven não esteja tão emproado como outrora. Ainda assim, convém relembrar que o realizador foi responsável pela inteligente reinvenção do filme slasher na década de 90, com a saga Scream. Aí, Craven divertiu-se a satirizar e a desconstruir as convenções de um género que ele próprio propagou, numa caldeirada cinematográfica que englobava genialmente o thriller, a comédia negra e o suspense.

Depois de um miserável Cursed, chegou-nos em 2005 Red Eye, um thriller de raízes hitchcockianas que se assemelha a um qualquer mito urbano oriundo do folclore norte-americano. Temos então Lisa Reisert, uma gerente de hotel que não lida muito bem com viagens aéreas. Enquanto espera pelo seu voo nocturno para Miami, Lisa confraterniza com um simpático passageiro, Jack Ripper, que vem a partilhar um lugar junto a ela no avião. O que começa como um simples flirt de aeroporto torna-se num pesadelo claustrofóbico quando, em plena viagem, Jack lhe diz que é um assassino contratado. E mais: Lisa terá de desempenhar um papel activo na sua mais recente missão, caso contrário o pai da jovem será eliminado!

Red Eye, mesmo contando com um argumento simplista e longe de ser um filme magnífico, arranca muito bem. As primeiras imagens remetem para o imaginário da comédia romântica light, mas rapidamente se percebe que as regras do jogo cedo se irão inverter. Assim que as personagens entram no avião, começa o jogo do gato e do rato, do predador e da presa, em que o thriller elimina sem perdão o romance incipiente. A asfixia devido à tensão da situação e ao minimalismo do cenário dramático é quase palpável e permite um empolar do confronto psicológico entre Jack e Lisa, o que é fascinante. A acção torna-se ainda mais sufocante para o espectador pelo facto de nenhum outro passageiro estar ciente do que se está ali a passar naquele espaço exíguo. Assim, somos como que um peão impotente que assiste a tudo de forma incrédula (somos manipulados e designados cúmplices à boa maneira do mestre Hitchcock).

Este segmento da narrativa, que corresponde à viagem de avião, está maravilhosamente arquitectado, se bem que esteja mais próximo do modelo de thriller do que de terror. A belíssima Rachel McAdams, uma das promessas do novo cinema made in USA, surpreende ao elaborar uma interpretação engenhosa, dinâmica e cheia de nuances, com uma qualidade rara para os filmes deste género. A actriz integra na perfeição o cinema de Craven, que sempre se gabou de privilegiar a destreza feminina em contextos de pura ameaça. O seu companheiro de cena, Cillian Murphy (com uma estrutura facial rigída e olhos demoníacos que impõem respeito) compõe um vilão insinuante com uma carga de inusitada elegância. O duelo incendiário entre os dois, que resulta numa química intensa, será certamente um dos maiores atractivos de todo este projecto, que só dá um passo em falso já na resolução final.

Pois é, quando a acção se transfere do avião para o cenário de Miami, Craven perde o fôlego que tão bem vinha a sustentar e cai nesse erro de facilitismo que é introduzir uma sequência banal de slasher movie de série B. Essa parte final destoa num tecido narrativo que estava a ser tão brilhantemente fabricado, mas ainda assim não é nociva o suficiente para destruir o impacto desta montanha-russa de emoções. Perdão, avião de emoções!


Classificação: 3/5

6 comentários:

blog da pipoca disse...

Confesso que não sou assim tão grande fã de Craven. "Nightmare on Elm Street" a mim não me entusiasmou nada - e eu sou fã de "Halloween" e "Friday the 13th". Contudo o senhor saiu-se nos anos 90 com uma coisinha chamada "Scream", e aí ele brilhou e criou uma trilogia que ficou para a história. Esses sim, são muito bons. Este "Red Eye" parece-me um filme banalíssimo e quando o comparas de certa forma a Hitchcock só me apetece dizer SACRILÉGIO - perdoa-me a provocação! Ainda assim também não é assim tão mau.

O melhor do filme é mesmo a dupla. A bela Rachel McAdams e Cilian Murphy, que dá um bom vilão!

Nota: 2,5/5

Anônimo disse...

Adorei seu post!

Pessoal, essa eu tenho que recomendar, dois sites interessantíssimos: www.meus3desejos.com.br e www.videoflix.com.br.

Abs.

blueminerva disse...

Também eu sou fã de Wes Craven. Sou fascinada por filmes de terror. "The Serpent and the Rainbow" com Bill Pullman é uma pérola intemporal. E o "A Nightmare on Elm Street" também é muito bom. Mas este "Red Eye" não me soube a nada. Confesso que até achei-o previsível.
Um abraço

Hugo disse...

Gosto muito dos filmes de Wes Craven, esse "Red Eye" é interessantíssimo, uma história simples mas muito bem narrada e que prende o espectador.
Bluemineva citou "The Serpent and The Rainbow", um filme bem legal, mas com um final fraco.

Abraço.

Isabela disse...

Não é de todo ruim, mas os clichês e algumas falhas acabam deixando a desejar!

Cataclismo Cerebral disse...

Blog da Pipoca: Atenção: quando o comparo a Hitchcock é no facto do filme ter "raízes hitchcokianas", especialmente na forma como tenta manipular o espectador. É claro que Craven não consegue ser o mestre, mas também creio que não o quer ser. Acho que o Pesadelo em Elm Street mete o Friday The 13th a um canto (e eu até gosto deste filme) ;)

Anónimo: ;)

Blueminerva: Também me sabe bem o género de terror! Sei que este Red Eye não cai no gosto de muita gente (o filme tem um argumento com alguns buracos), mas ainda assim safo-o com nota positiva. Tudo por causa das cenas no avião e da dupla McAdams/Murphy.

Hugo: Tem a capacidade de nos prender à sua história não muito fascinante. Levanta voo com grande eficácia, mas perde o ritmo já na parte final.

Isabela: Sim, poderia ter sido tão melhor. O argumento deveria ter sido limado de uma outra forma...

Abraços