sábado, 5 de julho de 2008

Bitter Moon - Lua de Mel, Lua de Fel (1992)


Quando um Homem ama uma Mulher...

Roman Polanski encena, em Bitter Moon, um assombroso conto erótico que se propõe a destruir, com vincada convicção e sarcasmo, as mais diversas ilusões e convenções reinantes no género romântico. Não só o realizador cumpriu a tarefa com um êxito avassalador, assinando um drama muito ácido que se assemelha a um opúsculo anti-romance, como acabou por edificar um dos melhores títulos da sua filmografia. Estamos, de facto, perante uma melancólica história de encontros acidentais, tecida com uma elevada carga sensual e que perscruta, com sobriedade, a faceta mais perversa do desejo, do amor e da obsessão sexual.

Oscar e Mimi sentiram uma atracção instantânea quando os seus rumos se entrelaçaram. O amor fogoso brotou, ganhando uma aura idílica, mas cedo se auto-consumiu devido à forte dependência que se estabeleceu entre aquele par de amantes. Afinal, tudo o que é vivido com tanta intensidade acaba por estagnar, mais tarde ou mais cedo. Agora, enquanto estão num cruzeiro rumo a Istambul, Oscar e Mimi estabelecem contacto com um jovem (e reprimido) casal inglês, que será o fiel depositário dos relatos incendiários de uma paixão que já o foi, mas já não é, e que apenas deixou dilacerações irreversíveis nos seus elementos humanos.

Bitter Moon escalpeliza, com assumida naturalidade, temas tão escaldantes como a decadência moral, a anulação pessoal e a submissão (sendo que este último acarreta a prática do sadismo e masoquismo), sem nunca esquecer a estruturação de uma narrativa eminentemente complexa a nível dramático. O conteúdo aqui é sério, adulto e radicalmente diferente dos padrões românticos que Hollywood tão prolificamente advoga. Roman Polanski quase desce a patamares dantescos, nesse seu inominável objectivo de desbravar os territórios movediços da interacção entre um homem e uma mulher (e do amor e do ódio que se apoderam de cada um deles). Uma coisa é certa: a viagem naquele cruzeiro será tão trágica e inesquecível como o percurso daquela história amorosa.


Classificação: 4/5

7 comentários:

Carlos Pereira disse...

Absolutamente. Polanski eleva o filme ao extremo, à beira do abismo, e tudo se torna obsessivamente perverso. Uma história de amor contada em pleno Inferno. 4/5 também.

Um abraço ;)

Red Dust disse...

O fascínio e a sedução ultrapassam tudo o que a alma poderia chamar de compreensível. Muito bom.

A minha classificação: 9/10.

Abraço.

Isabela disse...

Ja ouvi falar muito sobre esse filme, mas nunca consegui assisti-lo. Na tv nunca vi passar, e nao consigo encontrar nas locadoras.

blueminerva disse...

Muito bom. Polanski explora os limites da obsessão de forma magistral tal como havia feito em Carrie! E Peter Coyote prendeu-me desde o primeiro take.
beijocas

Rosie disse...

Ofereceram-me este DVD mas não sei porque ainda nao tive vontade de lhe pegar.
Mas esta critica e sem duvida um incentivo. Obrigada!
Fiquem bem=)

Cataclismo Cerebral disse...

Carlos Pereira: Um Inferno do qual não conseguimos desviar o olhar...

Red Dust: Polanski no seu melhor, não é? Muito bom mesmo.

Isabela: É tramado que não o consigas "apanhar", porque o filme vale bem a pena :S

Blueminerva: O Carrie é do Brian De Palma. Mas sim, Polanski explora os limites da obsessão de forma...doentia. Grande triunfo artístico, sem sombra de dúvida.

Rosie: Não percas mais tempo e mete o DVD no leitor!


Abraços!

Bárbara disse...

Perfecto!! De uma complexidade e sensualidade impressionante!