sábado, 31 de maio de 2008

American Splendor (2003)

Comics de uma Vida

Harvey Pekar, um neurótico com uma existência a roçar o caos, acumula relações falhadas, sobrevive numa casa em pantanas, colecciona discos antigos e tem um emprego não muito estimulante como arquivista. Entre uma e outra obsessão, Pekar decide auto-publicar uma revista de banda-desenhada chamada American Splendor, onde lhe é permitido inscrever e satirizar os malabarismos do seu quotidiano. Com a ajuda essencial do artista Robert Crumb, o homem comum da classe média americana passa assim a debruçar-se sobre as inquietações que o perseguem, a difícil conquista do amor, a formação de uma família e a sua luta contra uma doença devastadora.

Muito mais do que uma comédia offbeat sobre um eterno looser que não se importa de o ser, American Splendor é um brilhante retrato da obra e personalidade de um génio depressivo da cultura underground que encontrou na publicação das suas próprias comics a fonte de expressão artística máxima. O filme respeita inteiramente os moldes das BD's, integrando até essas especificidades na sua construção narrativa (há cenas que se deixam dominar pela estética e layout desse universo, com as personagens a surgirem desenhadas e com balões de texto a descrever o que se passa), o que resulta num delírio visual criativo.

Mas a dupla de realizadores não está interessada em traçar mais um biopic convencional de um artista alternativo, mesmo que este disponha de artifícios visuais que o distingam dos restantes. O inovador e interessante é que Shari Springer Berman e Robert Pulcini permitem que o verdadeiro Harvey Pekar faça alguns interlúdios para comentar determinadas situações ou até a performance de Paul Giamatti, que o interpreta de forma poderosa. No entanto, não é só Pekar quem brilha: também os outros visados na história têm tempo de antena para fazer as suas aparições e dizer de sua justiça.

Goste-se ou não de Pekar e do seu trabalho, a verdade é que American Splendor (um fulgurante sucesso indie que se fartou de arrecadar prémios) consegue conquistar pela sua veia criativa pululante, pela dose de comédia ácida e weird e ainda pelos seus momentos melodramáticos cativantes. É certo que a irreverência no campo formal compõe o ramalhete, mas o grande trunfo está mesmo no delicioso argumento. E no par de interpretações principais, da responsabilidade do já citado Giamatti e da subvalorizada Hope Davis.


Classificação: 4/5

8 comentários:

curse of millhaven disse...

Grande filme!! Adorei quando vi!

Maria del Sol disse...

É realmente muito original, a todos os níveis. Giamatti depois desta portentosa intepretação pouco tem a provar. :)

looT disse...

Este é daqueles que quero muito ver, mas acaba sempre por me escapar ;)

Abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Curse: Também fiquei surpreendido com a qualidade deste filme, é muito bom mesmo...

Maria: Este excelente filme foi a revelação de Giamatti enquanto actor de composição. Ele está muito bem na pele de Pekar.

Loot: Acho que este é fundamental para ti, porque és um grande apreciador de BD's. Não percas mais tempo e aluga-o!

Abraços

Hugo disse...

Não sou fã de quadrinhos e nem conhecia Harvey Pekar, mas o filme é muito legal e a interpretação de Giamatti é ótima, como sempre.

Abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Hugo: Também só fiquei a conhecer bem Pekar neste filme. Já tinha ouvido falar nele, mas não conhecia a fundo a sua persona. Também não sou fã de BD, mas este filme é sedutor mesmo para quem não seja apreciador.

Abraço

Anônimo disse...

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