sábado, 16 de fevereiro de 2008

There Will Be Blood - Haverá Sangue (2007)

A Febre Do "Ouro" Negro

Paul Thomas Anderson regressa à sua boa caminhada, depois de em 2002 nos ter dado um medíocre Punch Drunk Love, com Adam Sandler e Emily Watson. Aqui, ele não faz a coisa por pouco e o que nos oferece é, nada mais nada menos, do que um belíssimo épico de grande escala, reminiscente dos filmes dourados da era clássica norte-americana. There Will Be Blood apresenta um galvanizante Daniel Day-Lewis insano de complexidade e ambiguidade, com uma interpretação realmente magistral (que devora todas as cenas em que entra) e tão negra como o petróleo que a sua personagem ousa em extrair. É na presença do actor que reside a maior força do filme, é ele quem desembrulha o portfolio de emoções, que lança as linhas narrativas e é também ele que carrega com o peso de toda a obra. Day-Lewis é um perfeccionista nato, toda a sua carreira tem sido gerida de acordo com essa virtude irredutível. Mais uma vez, o intérprete dissolve-se no seu papel, criando uma figura colossal que já se está a tornar uma referência icónica para o cinema contemporâneo.

Em inícios do século XX, somos apresentados a Daniel Plainview, um ganancioso e famoso prospector de petróleo que saliva pelo imenso lucro que essa fonte proporciona. Equipado com o seu pessoal e com o filho menor (H.W. Plainview), Daniel começa a criar uma base de riqueza devido às terras que explora incansavelmente. Quando lhe chega aos ouvidos que existe uma região agreste com um subsolo rico em petróleo, o magnata muda-se de malas e bagagens para lá. A região, conhecida por Little Boston, assemelha-se a um deserto, mas está repleta de gente cuja vida se resume ao trabalho e à dedicação extrema à fé. Um dos seus habitantes é Eli Sunday, um fanático evangélico e principal mentor e profeta da Igreja da Terceira Revelação, que é basicamente a ordem religiosa que impera naquela terra. O jovem entretém-se a purificar a alma dos fiéis na suas tresloucadas sessões espirituais e todos os seus esforços convergem no sentido de angariar fundos para manter a sua missão. Entre Plainview e Sunday estabelece-se uma relação de contornos negros, em que não dá para perceber muito bem quem é o santo e quem é o pecador. À medida que o tempo vai passando, a outrora afável maneira de ser do prospector transfigura-se numa faceta obscura, que começa a executar de forma brutal um conjunto de acções completamente condenáveis.

O filme começa de forma bastante insólita, apresentando um largo segmento de imagens poderosas, mas estéreis de diálogos. Logo aí dá para perceber que estamos perante uma obra disposta a corromper com todos os códigos do cinema actual, pretendendo trilhar imaculadamente o terreno da originalidade - mesmo que invoque com discrição a aura selecta de Kubrick. A prova desse esforço criativo é ainda a forma espantosa como o argumento mergulha, sem receios, no lado mais negro da condição humana: durante quase 3 horas de fita presencia-se a obsessão, manipulação, mentira, avareza e maldade, tudo filmado por P. T. Anderson com a maior das naturalidades. Com uma abordagem dessa natureza, não é de estranhar a facilidade com que o espectador abraça a progressiva alteração da personalidade de Daniel; afinal, ele é alguém tão condenável quanto intrigante, fazendo com que os sentimentos dúbios entrem em disputa durante todo o filme. Mesmo quando ele afirma descaradamente que odeia todos os homens torna-se impossível ignorá-lo... Depois, é importante não esquecer a questão da fé (um dos temas fulcrais), hábil a marcar presença o tempo todo e que está revestida de uma curiosa distorção, que afecta todas as personagens. A fé funciona aqui como uma espécie de refúgio puritano, ou lei implacável, onde se pode esconder todo o tipo de perversão. Noutro nível de leitura, o realizador parece estar apostado em afirmar que as bases para a construção da América tiveram a sua origem em conceitos moralmente dignos, mas que entretanto se desvirtuaram por completo, dando então prioridade à impureza do Homem ganancioso.

Verdadeiro clássico instantâneo, em "There Will Be Blood" realça-se ainda a sólida direcção de actores, os seus majestosos valores de produção, a fotografia cristalina e principalmente a banda-sonora que fica cravada na mente, tal é a intensidade dramática que ecoa (e que acompanha eficazmente a narrativa). Temos de agradecer a Jonny Greenwood este feito impressionante... Para além desta panóplia espantosa, conta-se ainda com um par de cenas verdadeiramente emblemáticas, que vão perdurar na nossa memória cinéfila. Um triunfo absoluto, com um elenco igualmente brilhante!


Classificação: 5/5

22 comentários:

curse of millhaven disse...

tu tb já foste ver este??? epah não páras!! :D


tb tenho de ir, urgentemente.

halloween 77 disse...

Estou super curioso por ir ver este filme...
É verdade... medíocre "Punch Drunk Love"... há coisas que não consigo compreender, mas é como se costuma dizer... cada cabeça sua sentença

curse of millhaven disse...

aah e para quem não souber johnny greenwood é guitarrista na melhor banda do mundo , los radiohead!!!



=P

Cataclismo Cerebral disse...

Curse: Já sabes que não posso perder estes filmes, esta altura é sagrada! O trabalho de Jonny é sublime, tal como o filme ;)

Halloween77: Para mim o Punch Drunk Love foi uma desilusão daquelas... mas como bem dizes, cada cabeça sua sentença!

Carlos Pereira disse...

O Magnolia e o Punch Drunk Love são, para mim, duas das obras-primas máximas dos últimos anos. There Will Be Blood supera-as. Ainda não consigo falar ou escrever sobre este filme... foi algo demasiado poderoso.

Abraço

José Quintela Soares disse...

Ainda não vi.
Mas não falta muito...

Cataclismo Cerebral disse...

Carlos: O Magnolia tenho como uma das grandes obras dos últimos anos; já o Punch Drunk Love passou-me ao lado. There Will Be Blood é colossal!

José: Não o perca, por nada deste Mundo!

Abraços!

blueminerva disse...

Pois eu estou como o Sr. Carlos Pereira... atónita! E há muito tempo que um filme não me deixava assim... inefável.
Um abraço

Cataclismo Cerebral disse...

Este não engana: deixa qualquer um embasbacado!

Abraço!

Sabrina. disse...

abaixo-assino.

Cataclismo Cerebral disse...

Sabrina: There Will Be Blood arrasa por completo! Merecia uma melhor performance nos Óscares... Ah, já agora Sabrina: eu gostei do Crash (Cronenberg) :) Acho que houve um mal-entendido que eu já expliquei na minha secção "Os Esquecidos". Apoio-a a 100% em tudo o que disse sobre o filme de 1996 ;)

Abraço!

PinkMoon disse...

Confesso que a banda sonora deixou um rasto de desilusão. Esperava muito mais, pois grande parte do filme está desenquadrada das imagens, talvez até funcione bem fora de algumas das imagens que sonoriza. Não é que a música não seja boa, mas de facto parece-me por vezes desequadrada.
É pena pois é um bom filme, embora assente totalmente no magnífico desempenho de Daniel Day-Lewis.

looT disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
looT disse...

Só para dizer que adorei todos os filmes de P.T. Anderson inclusivé Punch drunk Love que o acho formidável, uma comédia romântica alternativa como nunca antes tinha visto. Nem o acho um filme menor na carreira do realizador, claro que se gostamos mais do género de magnólia ou boogie nights o vamos preferir a Punch drunk Love, mas são todos filmes de um enorme nível.

Ah e finalmente já vi o There will Be Blood e ainda estou a absorver o filme, mas posso dizer que não só que PT Anderson sabe filmar mesmo muito bem, como se Daniel day Lewis não é um dos melhores actores da história do cinema, eu não sei quem é.

Grande abraço.

Cataclismo Cerebral disse...

Pinkmoon: Acho que a banda sonora é um prolongamento do espírito megalómano da personagem de Day-Lewis, logo assenta que nem uma luva no filme ;)

Loot: Gosto de todos os filmes de P.T. Anderson, excepto Punch Drunk Love. Não me convenceu nada... Sim, o "There Will..." é desses que demora a digerir, acompanhando-nos inclusivé muito depois da sessão ter terminado :)

Abraços!

Fifeco disse...

É de facto uma longa metragem de elevada qualidade. Então a interpretação de Daniel Day Lewis é perfeita, assim como a de Paul Dano. Mas, para mim, a fita extende a duração sem qualquer necessidade. Existem cenas perfeitamente escusadas. De todo o modo, é altamente recomendado.

Abraço

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