segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Babel (2006)


As Fronteiras da Comunicação

Brilhante conclusão da famosa Trilogia da Dor! O que apreendemos em "Babel" é que as nossas fronteiras individuais e familiares tendem a ser infinitamente mais devastadoras e implacáveis do que aquilo que se julga e que a incomunicabilidade ganha um peso difícil de suportar. Nesta aldeia de proporções cada vez mais globais, estão-se a esfumar os mais valiosos laços que nos unem uns aos outros, no aqui e agora. Refiro-me às relações entre pais e filhos, que neste filme assumem o papel de destaque e revelam que, independentemente das culturas, credos e nacionalidades, essas uniões necessitam de uma intensa e honesta comunicação por forma a não se desvanecerem. Não são só as fronteiras físicas que irremediavelmente nos vão afastando: são principalmente as nossas identidades, mágoas e os limites que traçamos que nos impedem de um contacto mais que desejado, tornando quase impossível esse desespero de transmitir o que nos vai no âmago. A incomunicabilidade torna-se o pólo caracterizador das relações que se estabelecem no filme (o casal americano em viagem por Marrocos e em vias de ruptura; a adolescente japonesa surda-muda que usa a sua sexualidade para se expressar e que tenta desesperadamente alcançar o seu distante pai; a babysitter mexicana que rompeu com o seu passado e que tentou edificar a sua vida noutro contexto, até se ver confrontada com um inacreditável incidente fronteiriço; e a paupérrima família marroquina, em particular as crianças, que acabam por iniciar a tragédia que irá interligar todas estas personagens em conflito interior) e, no entanto, a consciência desse facto levará também à confirmação da importância que o amor ocupa nesta vida. A dor existencial existe, mas é passível de ser amenizada com um breve toque, com um meigo abraço e com todo o amor inquestionável. É isto que estas personagens anseiam e que Alejandro González Iñárritu tão bem capta, tirando partindo de uma excelente equipa técnica e de um elenco também ele bastante diversificado (americanos, mexicanos, japoneses, marroquinos, a australiana Cate Blanchett,...). No fim de contas, a universalidade do amor e da dor está muito bem retratada num grande, grande filme!

Classificação: 5/5

8 comentários:

daniel disse...

Enquanto continuarmos a construir mais torres de Babel havemos de sofrer sempre com a dolorosa consciência de que a vida não é possível, a verdadeira vida. Não é esse o significado dos arranha-céus que se constroem? Tentamos agarrar, ou arranhar, o céu quando a nossa vida é aqui na terra. E, enquanto isso, construimos estas paredes de betão, metal e vidro que nos fecham nas nossas redomas cristalizadas. Estamos cada vez mais perto de tudo o que nos é exterior e mais longe de nós. E isso é que é a morte.

Carlos Pereira disse...

Dos melhores filmes do ano passado. E tem aquele que é na minha opinião um dos melhores finais do cinema...

Babel poderá parecer demasiado explícito nas suas abordagens, mas não é preciso camuflar à força mensagens e significados para se fazer um excelente filme. Sobre a crueldade do amor, sobre o quebrar de fronteiras físicas e psicológicas, e, acima de tudo, sobre a incapacidade de comunicação e de contacto. Uma curiosa contradição num mundo cada vez mais globalizado. Estamos perante uma magna meditação sobre identidades e geografias. Corajoso e transcendental!

Grande abraço Cataclismo, e parabéns pela maravilhosa crítica ;)

NunoSioux disse...

Um Filme verdadeiramente Suberbo!!!

Um fotografia fantastica, uma história incrivelmente real e assustadora!

Adorei!

Um Abraço

nunosioux.blogspot.com

PS: Em breve vai acabar a pausa técnica no ALUCINADOS

Francisco Mendes disse...

Que venha de lá o próximo passo de Iñárritu!

Cataclismo Cerebral disse...

Daniel: A necessidade do Homem em ir sempre mais além, pressupondo uma "boa" dose de ganância, levará sempre a que os sentimentos mais nobres e importantes saiam sempre prejudicados. Todos se magoam nesta jornada, quer aquele que a enceta, quer os que estão a seu lado.

Carlos: Aquele final é de fazer chorar as pedras da calçada. Excelente comentário, concordo com tudo o que disseste. A brutalidade do amor é um dos grandes traços do realizador, que tão bem explorou nesta trilogia.

Nuno: Soberbo, lá está! Ah, ainda bem que vão voltar à carga no Alucinados :)

Francisco: Cá esperamos! ;)

Abraços

Roberto F. A. Simões disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roberto F. A. Simões disse...
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Roberto F. A. Simões disse...

CINEROAD
http://cineroad.blogspot.com/

Crítica: Uma obra-prima do cinema contemporâneo. A globalização, as diferenças culturais e o choque de todas essas diferenças numa realização brilhante e originalíssima, fria e crua, do mexicano Alejandro González Iñárritu. O argumento de Guillermo Arriaga é completamente surpreendente, inteligente e muito bem construído. É excelente! De génio! Brad Pitt está divinal, Cate Blanchett também, e a mexicana Adriana Barraza tem uma interpretação que é a cara da angústia. Quando o choque é inevitável, o melhor é parar e escutar-mo-nos por dentro. Quando nu, o ser humano é igual em qualquer parte do mundo.

CINEROAD
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