terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Juno (2007)

A Idade Da Inocência

Juno, uma comédia com pitadas de drama e autenticada com o selo independente, viu a sorte cruzar-se com a sua trajectória comercial. O filme, escrito pela ex-stripper Diablo Cody e realizado por Jason Reitman (o mesmo de "Obrigado Por Fumar"), tem recebido elogios um pouco por toda a parte e foi agraciado com 4 nomeações para os Óscares (venceu na categoria de Melhor Argumento Original). Este é decididamente o culto indie do ano para muita gente, um pouco à imagem de "Little Miss Sunshine".

Confesso que o acho simpático, com um grande coração e com uma imensa vontade de ser original. Este último factor acaba por funcionar, no entanto, como uma espécie de maldição. É verdade que os diálogos são deliciosos e bem espirituosos (tal como a personalidade da personagem principal), mas quer-me parecer também que reflectem a vontade excessiva do argumento em colocar as suas personagens a debitar pérolas por tudo e por nada. Infelizmente, essa condição retira alguma naturalidade e espontaneidade ao projecto. Juno é desde logo uma fita que não receia a sua faceta offbeat e que muito menos tem problemas em abordar um assunto complicado: o da gravidez na adolescência. De facto, esta história de uma teenager que engravida do seu namorado geek e que decide que a adopção é a melhor solução está bem delineada, consegue ser cómica e comovente e, acima de tudo, tem o cuidado de proporcionar um retrato fiel dos jovens que encaram a sexualidade de uma perspectiva não escatológica. Os grandes problemas, na minha opinião, têm a ver com a inverosimilhança dramática de algumas situações e com o ostracizar de uma personagem que eu diria fundamental: a de Bleeker, o namorado de Juno e pai do bebé. Acontece que a sua importância na história é minimal, aparecendo quase exclusivamente para personificar uma alma nerd alheia a tudo.

Fora isto, chega-se à raíz vital da obra: Ellen Page. Ela eleva Juno para lá das nuvens, com uma interpretação sentida e artisticamente adulta. Para além de encher todo o ecrã com um dinamismo que rouba a atenção do espectador (não se tornando difícil perceber por que razão foi nomeada ao Óscar), a jovem actriz consegue ainda defender com unhas e dentes o papel de uma rapariga que se vê confrontada com uma situação de difícil gestão, ao mesmo tempo em que é quase obrigada a abandonar o seu estatuto de adolescente e a acelerar o processo de crescimento. Outro triunfo é o facto de Juno estar fortemente musicado, com o recurso a uma banda-sonora eminentemente indie e bem-disposta, que se encontra em perfeita sintonia com o espírito do próprio filme.

Não sendo magnífica, esta recente realização de Reitman revela-se humilde o suficiente para merecer a nossa atenção. No final, percebemos que estivemos na presença de um filme coming of age com uma essência muito específica, doce e honesta. E isso já é uma boa razão para nos levar uma sala de cinema o mais rápido possível...


Classificação: 3/5

16 comentários:

Gooffy007 disse...

Apatow e Reitman, são de facto a nova vaga de realizadores para um tipo de comédia que havia ficado orfão com o descalabro de W. Allen.
Ainda por cima com um lançamento também de um conjunto de jovens actores nas antípodas do que é hoje standard em Hollywood, Roggen, Cera e Page são disso o mais belo exemplo.

Claramente uma comédia a não perder numa fase em que a comédia pretendia apenas viver de formulas esgotadas e reutilizadas até à exaustão (scary something part III) e do óbvio star power.

Mas isso digo eu....

gonn1000 disse...

Gostei mas também acho que não é tão bom como muitos apregoam. Os diálogos são mesmo forçados em demasiadas ocasiões, o nerd de Michael Cera não faz quase nada e há alguma inverosimilhança... já originalidade não vejo ali muita.

Nia disse...

concordo com o facto de ser forçado as "pérolas" constantes mas, a meu ver, merece um 4/5.

O meu filme do ano, até agora, claro.

Saudações,
Nia

Maria del Sol disse...

Gostei tanto do "Little Miss Sunshine" que este de certeza que me vai encher as medidas... e mesmo sem o ter visto é justo dizer que a tua escrita ainda aguça mais o apetite :)

Beijinhos.

Cataclismo Cerebral disse...

Gooffy007: Quero acreditar que a nova geração da comédia conseguirá criar bons filmes, que primem pela originalidade e pela coerência. Quanto o W. Allen não acredito que a palavra descalabro se lhe cole à pele ;)

Gonn1000: Concordo com tudo o que dizes, poderia ter sido bem melhor. Ainda assim, vale a pena ver.

Nia: É um filme que gera simpatia, tornando-se quase impossível não gostar dele. Mas decepcionou-me um bocado, sinceramente.

Maria: Gostei mais do Little Miss Sunshine, mas Juno merece uma ida às salas. Obrigado pelo elogio Maria ;)

Bjs e abraços!

curse of millhaven disse...

sóóó?? baaah...discordo!!! =P

Anônimo disse...

ver tanta critica histérica ao Juno estava-me a provocar uma certa confusão, mas eis que vejo uma critica interessante. Uma das vantagens do Little Miss Sunshine em relação a Juno, é, na minha opinião, ser um filme mais honesto e simples. Ellen Page de facto tem uma interpretação assombrosa, mas a personagem dela é um bocado o Seth Cohen do O.C. grávido, e muito mais bem interpretado, a disparar piadas à velocidade da luz, e essa tentativa, que às vezes forçada, de ter piada, a meu ver tirou certa honestidade ao filme. Depois aborda o tema da gravidez, e principalmente do aborto, como se fosse uma coisa banal e superficial: "Que é que vais fazer hoje à tarde?","Um aborto e tu?","Vou ver o Juno", "Ah ok, então depois de despachar aquilo vou lá ter contigo". Mas gostei imenso da tua crítica, 5/5

Anônimo disse...

a critica é que é 5/5 entenda-se

Cataclismo Cerebral disse...

Curse: É verdade amiga, queria ter gostado mais mas tal não se verificou :s

Anónimo: Percebo perfeitamente o que queres dizer e foi isso que senti durante o filme. Obrigado pelo elogio ;)

Abraços!

Betty Coltrane disse...

concordo com a curse!!! sóó?!!!! =P

Cataclismo Cerebral disse...

Lol Não consigo dar-lhe mais que isso Betty, a sério :(

Johnny Boy disse...

Apesar de achar que é um belo filme também não morro de amores por Juno. Acho que a euforia em volta deste filme foi deveras exagerada. Num ano tão rico em belos filmes acho muito injusto estar entre os cinco melhores...num outro ano talvez não pensasse assim.

Johnny Boy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
halloween 77 disse...

Apesar de algumas falhas, tenho que dizer que na sua globalidade gostei muito, pena foi a péssima legendagem com que a Lusomundo nos presenteou neste filme, que pode ter contribuído para que se perdessem muitas piadas para muitos portugueses

Cataclismo Cerebral disse...

Johnny boy: Percebo o que queres dizer. É difícil não gostar de Juno, mas também é verdade que não é um filme por aí além...

Halloween77: Eu gostei razoavelmente e quanto às traduções é melhor nem falar :S

Abraços!

Anônimo disse...

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