A Inquietude SuburbanaJá não é propriamente original a temática dos subúrbios americanos e todo o típico way of life que lhe é inerente. Basta evocar títulos populares como American Beauty e Happiness para constatar o óbvio. Mas esta opção criativa não impede que um filme desta natureza seja fabuloso! É precisamente esse o caso de Little Children (péssima tradução para português, mais uma vez), um fiel exemplo da beleza que constitui a revisitação dos códigos do melodrama mais clássico.
Nos arredores de Boston, Sarah, casada e mãe de uma menina, envolve-se com Brad, também ele casado, pai de um rapaz e alvo das atenções de quase todas as "donas de casa desesperadas" do bairro. O marido de Sarah distancia-se cada vez mais da sua família, pois encontra-se fascinado por outras actividades extra-conjugais. No caso de Brad, tudo parece correr de feição: ele encontra estabilidade no seu seio familiar e recebe constantemente o conforto e apoio da sua esposa Kathy, uma bela mulher. Mas as leis da atracção pregam partidas naquela acolhedora comunidade, que une os corpos ardentes de desejo. Ainda para mais, a convulsão instala-se na existência pacata de todos os moradores do bairro, uma vez que chega um pedófilo que acaba de cumprir pena por exposição sexual perante um menor...
Neste belo filme assinado por Todd Field (o mesmo responsável pelo fabuloso In The Bedroom - Vidas Privadas) são as crianças que dão o mote para o desenrolar da narrativa e que providenciam os inúmeros encontros entre as personagens principais (seja nos belos parques ou na piscina municipal). A inocência dos petizes entra em confronto directo com alguns dos sentimentos menos puros dos seus pais (sendo estes as verdadeiras pequenas crianças, como o título indica), que usam os filhos para satisfazer os seus desejos mais íntimos. A fachada do socialmente correcto e das acções estandardizadas dentro de uma ordem pré-estabelecida estão nos antípodas daquilo que aqueles adultos realmente sentem e consideram mais satisfatório. Na verdade, os seus pensamentos e comportamentos encontram-se no reino da infantilidade, imaturidade e no prazer do imediato, os grandes temas do filme.
O que aquelas personagens ambicionam resume-se também a uma ruptura com a rotina, nem que seja por pouco tempo (Brad anseia por alguma adrenalina e perigo, tudo relacionado com a sua imberbe paixão pelo desporto; Sarah apenas quer sentir que é amada e vista como uma mulher desejável, apesar de ser mãe a tempo inteiro e amar a sua filha mais do que imagina) e ao desejo de arriscarem, de serem destemidos. A personagem do pedófilo recém-chegado está brutalmente bem caracterizada, principalmente quando a percepcionamos na assombrosa cena da piscina: enquanto as crianças brincam efusivamente, aquela presença circunda-as como se fosse invisível; quando se se apercebe de tal "predador", entra-se na histeria colectiva (pais e filhos), como se de um tubarão se tratasse.
A questão da voz off literária (decisão que nem sempre alcança o consenso do público), é um achado esplêndido, pois assemelha-se às vozes que narram os famosos documentário de vida animal. Neste Little Children, tal facto não se torna descabido de todo, pois basicamente o que se verifica é um conjunto de comportamentos animalescos e tendencialmente perigosos.
Destaque final para a qualidade galvanizante do argumento e para as interpretações, especialmente as de Kate Winslet e Jackie Earle Haley, justamente nomeados ao Óscar. Pena é que Jennifer Connelly, uma excelente actriz de composição, tenha tão pouco tempo de antena. Nem tudo pode ser perfeito... Enfim, um dos grandes filmes do ano!
Classificação: 5/5