terça-feira, 7 de agosto de 2007

Lord Of The Flies - O Deus Das Moscas


Está na altura de terminar a leitura desta obra-prima de William Golding, que tive de interromper há uns tempos e que se foi perdendo nas minhas prioridades literárias. Desde sempre que a temática deste livro me fascina. Principalmente, desde um maravilhoso documentário no canal People+Arts, que se debruçava sobre a interpretação deste grande clássico da literatura. Traçavam-se aí comparações entre as personagens de Golding e os actuais elementos dos gangs de bairros degradados. Um dos entrevistados, se bem me lembro oriundo desse meio, admitiu que as diferentes personalidades e as dinâmicas de grupo descritas no livro encontram paralelo na realidade. Não vou esperar mais para concluir esta odisseia!

Little Children - Pecados Íntimos (2006)


A Inquietude Suburbana

Já não é propriamente original a temática dos subúrbios americanos e todo o típico way of life que lhe é inerente. Basta evocar títulos populares como American Beauty e Happiness para constatar o óbvio. Mas esta opção criativa não impede que um filme desta natureza seja fabuloso! É precisamente esse o caso de Little Children (péssima tradução para português, mais uma vez), um fiel exemplo da beleza que constitui a revisitação dos códigos do melodrama mais clássico.

Nos arredores de Boston, Sarah, casada e mãe de uma menina, envolve-se com Brad, também ele casado, pai de um rapaz e alvo das atenções de quase todas as "donas de casa desesperadas" do bairro. O marido de Sarah distancia-se cada vez mais da sua família, pois encontra-se fascinado por outras actividades extra-conjugais. No caso de Brad, tudo parece correr de feição: ele encontra estabilidade no seu seio familiar e recebe constantemente o conforto e apoio da sua esposa Kathy, uma bela mulher. Mas as leis da atracção pregam partidas naquela acolhedora comunidade, que une os corpos ardentes de desejo. Ainda para mais, a convulsão instala-se na existência pacata de todos os moradores do bairro, uma vez que chega um pedófilo que acaba de cumprir pena por exposição sexual perante um menor...

Neste belo filme assinado por Todd Field (o mesmo responsável pelo fabuloso In The Bedroom - Vidas Privadas) são as crianças que dão o mote para o desenrolar da narrativa e que providenciam os inúmeros encontros entre as personagens principais (seja nos belos parques ou na piscina municipal). A inocência dos petizes entra em confronto directo com alguns dos sentimentos menos puros dos seus pais (sendo estes as verdadeiras pequenas crianças, como o título indica), que usam os filhos para satisfazer os seus desejos mais íntimos. A fachada do socialmente correcto e das acções estandardizadas dentro de uma ordem pré-estabelecida estão nos antípodas daquilo que aqueles adultos realmente sentem e consideram mais satisfatório. Na verdade, os seus pensamentos e comportamentos encontram-se no reino da infantilidade, imaturidade e no prazer do imediato, os grandes temas do filme.

O que aquelas personagens ambicionam resume-se também a uma ruptura com a rotina, nem que seja por pouco tempo (Brad anseia por alguma adrenalina e perigo, tudo relacionado com a sua imberbe paixão pelo desporto; Sarah apenas quer sentir que é amada e vista como uma mulher desejável, apesar de ser mãe a tempo inteiro e amar a sua filha mais do que imagina) e ao desejo de arriscarem, de serem destemidos. A personagem do pedófilo recém-chegado está brutalmente bem caracterizada, principalmente quando a percepcionamos na assombrosa cena da piscina: enquanto as crianças brincam efusivamente, aquela presença circunda-as como se fosse invisível; quando se se apercebe de tal "predador", entra-se na histeria colectiva (pais e filhos), como se de um tubarão se tratasse.

A questão da voz off literária (decisão que nem sempre alcança o consenso do público), é um achado esplêndido, pois assemelha-se às vozes que narram os famosos documentário de vida animal. Neste Little Children, tal facto não se torna descabido de todo, pois basicamente o que se verifica é um conjunto de comportamentos animalescos e tendencialmente perigosos.

Destaque final para a qualidade galvanizante do argumento e para as interpretações, especialmente as de Kate Winslet e Jackie Earle Haley, justamente nomeados ao Óscar. Pena é que Jennifer Connelly, uma excelente actriz de composição, tenha tão pouco tempo de antena. Nem tudo pode ser perfeito... Enfim, um dos grandes filmes do ano!


Classificação: 5/5

sábado, 4 de agosto de 2007

The Village - A Vila (2004)

O Amor iluminará o caminho...

Sem dúvida uma das pérolas desta década! Depois de surpreender meio-mundo com o emblemático The Sixth Sense e de ter prosseguido na sua caminhada de obtenção de respeito crítico e comercial com The Signs e Unbreakable, M. Night Shyamalan voltou à acção para nos brindar com uma fabulosa parábola lírica sobre as profundezas do medo colectivo, a obsessão securitária dos dias de hoje e a (im)possibilidade de retorno a uma espécie de pureza original. Perante tamanha riqueza temática, o realizador encontra ainda uma brecha para lançar um discreto piscar de olho à Alegoria da Caverna, de Platão.

O filme gira em torno de uma pequena vila da Pensilvânia, em 1897. Nessa comunidade supostamente idílica (reminiscente dos Quakers e Amish), os indivíduos relacionam-se de forma cordial e pacífica, cumprindo à risca todas as regras ditadas pelos governantes. Mas nem tudo é perfeito: é sabido que na periferia residem monstros que, de tempos a tempos, atacam os habitantes e deixam marcas vermelhas assinaladas nas portas. Essas marcas são como que ameaças de morte, indicativas de que toda a precaução se torna fundamental. Para além das rígidas regras da vila (onde, por exemplo, se estabelece a proibição do uso da cor vermelha e da transgressão do espaço social definido), somos convidados a conhecer alguns dos seus residentes, como é o aso de Ivy (uma rapariga cega, filha de um dos líderes), o introvertido Lucius Hunt (o grande amor de Ivy) e o mentalmente desequilibrado Noah Percy. Quando Lucius ousa desafiar as convenções sociais para descobrir o que existe para lá da vila, o futuro de toda aquela gente poderá estar ameaçado...

Se esta não é a melhor crítica à era da administração Bush, à mentalidade americana contemporânea (ávida de um isolamento auto-imposto e da mais completa alienação) e à cultura do medo do "outro", então estamos lá perto! Shyamalan constrói uma narrativa fascinante, utópica e subtil sobre a paranóia (e as múltiplas feridas) do pós-11 de Setembro e a errática política externa dos EUA. Todo o filme é uma metáfora que espelha com exactidão a realidade presente nas terras do Tio Sam. Vejamos: naquela vila, a inocência anda de mãos dadas com a ignorância; todas as leis são acatadas pelos habitantes sem que estes tenham grande hipótese de resposta; quem contraria as imposições e o pensamento generalizado torna-se automaticamente um perigo que deve ser controlado; enfim, o que importa, única e exclusivamente, é aquela área delimitada e os seus ocupantes.

Contando com interpretações maravilhosas (excelentes Bryce Dallas Howard, Sigourney Weaver, Joaquin Phoenix e Adrien Brody), uma banda sonora envolvente e uma fotografia linda e singela, The Village acaba por ser não o filme de terror ou de suspense que todos pensávamos que seria, mas sim um genuíno drama romântico (onde o romance é ingénuo e desesperado, mas completamente arrebatador). O filme foi mal recebido nos EUA (porque será?), mas a Europa fez-lhe justiça, acolhendo-o e interpretando-o como deve ser. De facto, The Village dá muito que pensar, motiva algumas conversas bem interessantes e é, na minha opinião, o melhor filme do realizador indiano até à data!



Classificação: 5/5

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Top Indiana Jones

Agora que o 4º Indiana Jones já está em fase de produção, deixo aqui as minhas preferências relativamente a esta saga:

1) Indiana Jones e o Templo Perdido (1984)

2) Os Salteadores da Arca Perdida (1981)

3) Indiana Jones e a Grande Cruzada

A Homenagem...

Amanhã, a RTP2 presta um tributo aos dois excelentes realizadores recentemente falecidos: Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni. Assim sendo, a sessão dupla será constituída pelo "Saraband" (de Bergman) e "Blow Up" (Antonioni). Dois excelentes filmes que retratam o imenso talento destes autores...

Saraband - 22h40
Blow Up - 00h25

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

É o vale tudo!

A estação britânica ITV ludibriou mais uma vez os espectadores ao publicitar um documentário em que se veria os últimos segundos de vida do músico e compositor Malcolm Pointon, que sofria de Alzheimer. A estação de televisão já assumiu a mentira, mas toda esta tramóia só foi desmascarada quando o irmão do paciente se manifestou. Este afirmou que a equipa responsável pela produção do documentário apenas captou o momento em que Malcolm ficou inconsciente (três dias antes da sua morte) e não a sua real morte. Este projecto começou a ser filmado há 11 anos, desde que o doente teve conhecimento do seu problema de saúde... Já se sabe que as estações televisivas fazem tudo pelas audiências, mas este "tudo" é deveras chocante! Tem de haver limites para tais comportamentos!

Closer - Perto Demais (2004)

Hello stranger!

Ela caminha na rua e olha para ele. Mal sabe ela o jogo em que está a entrar. Um acidente intervém e eles conhecem-se! A partir daqui somos convidados a observar a vida de quatro pessoas que tentam desesperadamente encontrar o amor. São eles Anna, Alice, Dan e Larry. Dan e Alice formam um casal. Anna e Larry, outro. Mas a instabilidade amorosa é uma das características destas personagens, que não conseguem decidir muito bem o que querem, ou quem querem, para as suas próprias vidas. Ocorre a inevitável troca de parceiros e desenrolam-se inúmeras manipulações e jogos de traições. É por isso que, mais do que o amor, o que está em causa é o poder, o controlo de si mesmo e dos outros!

E nisto, Larry (Clive Owen) é o melhor, um manipulador nato e perito em jogadas arriscadas. É médico de profissão, mas tal cargo de prestígio não evita que ele seja moralmente corrupto e, assim sendo, o mais "sujo" de todos. No pólo oposto encontramos Alice (Natalie Portman), uma stripper cuja profissão é imediatamente associada ao deboche, mas que no entanto é a única personagem que conserva alguns valores morais e que bem tenta manter forte as bases da sua relação. O seu companheiro é o frágil Dan (Jude Law), um escritor de obituários, que não consegue enfrentar as complicações do coração e que é assim o mais fraco e manipulável dos quatro (repare-se que as únicas vezes em que ele se apercebe totalmente do que se está a passar é quando se vê reflectido nos espelhos, seja na casa de banho ou no elevador). Por fim, Anna (Julia Roberts), esposa de Larry e objecto de afeição por parte de Dan, é uma talentosa fotógrafa que se apresenta como sendo uma mulher independente e segura da sua personalidade e convicções, mas na realidade não é mais que um joguete nas mãos dos homens, acabando no fim por revelar o seu handicap: a submissão (face a Larry, quer na cena do restaurante, quer no final do filme, ao tapar o marido na cama).

Depois do caos, Alice caminha novamente na rua, mais madura e confiante na sua verdadeira identidade, conseguindo assim sair do perigoso "jogo"... Não, de facto o amor não morou aqui! Estamos perante aquele que é um perfeito filme sobre as relações adultas, radicalmente diferente dos outros modelos românticos propagados por Hollywood. Embora aqui os adultos se comportem muitas vezes como crianças, a verdade é que não se está muito longe da realidade. O filme não esconde a sua célebre origem teatral (da responsabilidade de Patrick Marber, que assina aqui o argumento) e ainda bem que assim é, pois os diálogos ganham uma dimensão (leia-se brutalidade) inesquecível. As interpretações deste quarteto de actores iluminados são perfeitas e cada um consegue descolar-se da sua vincada 'imagem de marca'. Mike Nichols (autor do emblemático The Graduate), soube gerir bem o rumo desta história de encontros, envolvimentos e traições, apostando numa realização serena e repleta de planos verdadeiramente belos que não hesitam em captar a intimidade das suas personagens. Uma nota final para a linda mas perturbadora canção de Damien Rice, The Blower's Daughter, que inicia e finaliza este Closer. Uma obra-prima contemporânea!


Classificação: 5/5