Entre o Inferno e o CéuGaspar Noé levou o seu filme a Cannes e as reacções resumiram-se a ondas de contestação. Na verdade, sem contar com "The Brown Bunny" (de Vincent Gallo), não me recordo de um outro filme na história recente que tenha sido alvo de tanta pancadaria por parte da crítica presente nesse certame. O realizador de "Irréversible" também não ajudou à festa, já que fez questão de promover a película através da atribuição de rótulos pouco convencionais. Mas não é por aí que vem mal ao Mundo. O problema é que muito se falou dos conteúdos arriscados (incluindo a infame cena da violação da personagem de Monica Bellucci, que dura praticamente 10 minutos) e do pseudo-lirismo da obra, mas o que surgiu à tona foi uma inanidade com mais olhos que barriga.
O argumento foca a atenção em três personagens: a bela Alex, Marcus (o actual companheiro de Alex) e Pierre (amigo do casal e ex-namorado dela). Quando a namorada sofre um brutal ataque num túnel tétrico, Marcus entra numa espiral de fúria e planeia uma vingança igualmente violenta. Tendo a seu lado Pierre, Marcus procura desenfreadamente o responsável pela tragédia, sendo que a sua busca o conduz a um bar chamado "Réctum" e à identidade do agressor, que responde pelo nome Tenia. Subtil, não é? Na minha opinião, Noé não faz mais do que uma tentativa desesperada de encarnar uma aura de enfant terrible, apoiando-se num filme-choque que está inacreditavelmente desprovido de alma. O realizador optou por contar a história de trás para a frente, recorrendo a uma câmera ultra-virtuosa que parece decidida a deixar o espectador à beira do vómito e a uma banda-sonora irritante. Nada de muito novo no campo da opção formal, uma vez que "Memento" já fez isto e com resultados bem mais satisfatórios. Aliás, no caso de "Irréversible", esta solução acaba por ser simplista até à raíz: começa-se o filme no completo caos e só no final encontra-se a paz. Por outras palavras: para alcançarmos o Céu temos de passar pelo tormento do Inferno.
Os temas do filme são muito interessantes e poderiam ter desencadeado um resultado estimulante, no entanto quer-me parecer que a importância da narrativa foi posta de parte e que a suposta transgressão da estrutura formal é que assumiu o controlo do projecto. Depois, a questão do choque e da provocação tornam-se um dado quase pueril, uma vez que Noé esquece-se que tem uma história para contar e que a substância ainda é uma mais valia nos filmes. Aliada a estas falhas está a abordagem simplista das personagens: para além de raras vezes acedermos à sua complexidade emocional, rapidamente são tipificadas como que para nos facilitar o trabalho de pensar. Assim sendo, Marcus representa o vingador sem tréguas, Pierre é a consciência que a tudo assiste e Alex é a serenidade que suporta todo o mal do Mundo. É, no entanto, em Monica Bellucci que se encontra o pólo triunfante de "Irréversible". As cenas em que a actriz entra eclipsam todas as outras e confesso que raras vezes se vê uma intérprete disposta a ir a estes limites de representação, entregando-se física e mentalmente a um papel decidido a sugar-lhe toda a vida. O que ela consegue acarretar particularmente no segmento da violação é de uma bravura que não merece passar despercebida. A ela faço-lhe todas as vénias...
Outro destaque positivo diz respeito à sinceridade das cenas de intimidade entre Alex e Marcus (personagem desempenhada por Vincent Cassell, companheiro de Bellucci também na vida real). Noé nunca escondeu a influência de Kubrick e faz como que uma homenagem ao mestre, no que diz respeito à captação do espaço conjugal (tal como em "Eyes Wide Shut"). De lamentar é que, fora estes pontos atractivos, "Irréversible" se qualifique como um exercício estilístico inconsequente, com grandes ares de pretensão e alheio à dimensão humana das suas personagens.
Classificação: 1/5








