O Exterminador ImplacávelAnos 80. Essa década marcada pela gestão de Reagan será para sempre recordada como o zénite do excesso, o cume do consumo desenfreado. Nesse período da moral corrompida movimentavam-se predadores como Patrick Bateman, a figura nuclear do livro de Bret Easton Ellis. A realizadora Mary Harron soube ver o potencial desse marco literário e decidiu pegar na controversa obra de culto, adaptando-a para o cinema no ano 2000. O resultado? Muito bom, embora em Portugal a coisa não tenha sido lá muito estimulante: o filme chegou bastante atrasado às salas e a recepção por parte do público marcou-se, mais ou menos, pela indiferença.
American Psycho é um thriller carregado de sarcasmo e humor negro, que se passeia pelo cosmos da alta sociedade nova-iorquina. É lá que encontramos Bateman, um bem sucedido yuppie de Wall Street, dono de uma vida aparentemente glamourosa. Nada é deixado ao acaso na existência do senhor: a casa é luxuosa, os fatos são da mais pura alta-costura, o acesso a restaurantes da moda é fundamental e o tratamento excessivo do corpo uma necessidade básica. Solitário e narcisista, Bateman entra em disputa com os seus colegas de trabalho para averiguar qual deles possui... o mais requintado cartão de contacto! Entre a sua namorada loura e oca (que desconhece o verdadeiro "eu" do seu mais que tudo) e a sua amante viciada em drogas, o jovem dedica-se a um "desporto" repleto de rituais muito atípicos: mata prostitutas de rua, desalojados e companheiros de profissão que não suporta. Tudo com o maior dos preparos e enquanto disserta sobre os artistas e hits do momento que mais aprecia...
O filme é uma provocação de uma ponta à outra. É uma sátira elegante, inteligente e misógina até ao tutano sobre a convulsão interna de uma classe social alienada e hedonista onde a moral e a ética constituem conceitos vagos. Para além da excelente revisitação dos comportamentos superficiais e paisagens da época, Mary Harron propõe um brutal estudo da crueza inerente à sua personagem principal, o serial killer que apresenta a sua metodologia tirana como algo natural dado o contexto em que habita. De facto, a psique distorcida e as acções sádicas de Patrick Bateman mais parecem um prolongamento empolado daquilo que se passa na arena social e profissional onde ele se tenta impor constantemente.
Tenho pena de confessar isto, mas a performance de Christian Bale é que já não me convenceu por aí além. Se é verdade que há momentos em que o actor atinge a excelência dramática, também é certo que existem tantos outros onde a sua interpretação se torna algo "postiça". Não nego que o filme puxa por esse lado over the top, mas isso não significa que o actor tenha de entrar a maior parte do tempo nos portais do excesso (mesmo que se compreenda que queira estar em consonância com o espírito da narrativa). Ainda assim, não é este factor que diminui a qualidade geral da obra.
Saúdo sim é o fabuloso final, uma espécie de anti-climax que desvenda o desnorteamento a todos os níveis do tresloucado empresário. Pode não agradar a todos (há quem o ache patético), mas continuo a considerar que essa conclusão condimenta na perfeição um filme que, não sendo brilhante, constitui um irrecusável objecto de cinema.
American Psycho é um thriller carregado de sarcasmo e humor negro, que se passeia pelo cosmos da alta sociedade nova-iorquina. É lá que encontramos Bateman, um bem sucedido yuppie de Wall Street, dono de uma vida aparentemente glamourosa. Nada é deixado ao acaso na existência do senhor: a casa é luxuosa, os fatos são da mais pura alta-costura, o acesso a restaurantes da moda é fundamental e o tratamento excessivo do corpo uma necessidade básica. Solitário e narcisista, Bateman entra em disputa com os seus colegas de trabalho para averiguar qual deles possui... o mais requintado cartão de contacto! Entre a sua namorada loura e oca (que desconhece o verdadeiro "eu" do seu mais que tudo) e a sua amante viciada em drogas, o jovem dedica-se a um "desporto" repleto de rituais muito atípicos: mata prostitutas de rua, desalojados e companheiros de profissão que não suporta. Tudo com o maior dos preparos e enquanto disserta sobre os artistas e hits do momento que mais aprecia...
O filme é uma provocação de uma ponta à outra. É uma sátira elegante, inteligente e misógina até ao tutano sobre a convulsão interna de uma classe social alienada e hedonista onde a moral e a ética constituem conceitos vagos. Para além da excelente revisitação dos comportamentos superficiais e paisagens da época, Mary Harron propõe um brutal estudo da crueza inerente à sua personagem principal, o serial killer que apresenta a sua metodologia tirana como algo natural dado o contexto em que habita. De facto, a psique distorcida e as acções sádicas de Patrick Bateman mais parecem um prolongamento empolado daquilo que se passa na arena social e profissional onde ele se tenta impor constantemente.
Tenho pena de confessar isto, mas a performance de Christian Bale é que já não me convenceu por aí além. Se é verdade que há momentos em que o actor atinge a excelência dramática, também é certo que existem tantos outros onde a sua interpretação se torna algo "postiça". Não nego que o filme puxa por esse lado over the top, mas isso não significa que o actor tenha de entrar a maior parte do tempo nos portais do excesso (mesmo que se compreenda que queira estar em consonância com o espírito da narrativa). Ainda assim, não é este factor que diminui a qualidade geral da obra.
Saúdo sim é o fabuloso final, uma espécie de anti-climax que desvenda o desnorteamento a todos os níveis do tresloucado empresário. Pode não agradar a todos (há quem o ache patético), mas continuo a considerar que essa conclusão condimenta na perfeição um filme que, não sendo brilhante, constitui um irrecusável objecto de cinema.
Classificação: 4/5














