
A Vingança fez-se para Matar
Depois de uma noite regada a álcool, Oh Dae-Su é raptado e misteriosamente encarcerado num quarto de hotel que apenas dispõe de uma cama, secretária, bloco de notas e uma televisão (a sua única janela para o exterior). Esta enigmática situação não se resolve de imediato mas sim prolonga-se durante 15 anos de duras sevícias e da mais cruel das reclusões. Porém, chega o dia em que Dae-Su é inexplicavelmente libertado e incentivado a descobrir, num prazo de cinco dias, a identidade de quem lhe causou tanta dor. Com a ajuda de uma simpática chefe de shushi, o homem lança-se numa árdua investigação que o colocará face ao seu passado e a um violento processo de vingança...
Subversivo como poucos, Oldboy glosa uma temática já demasiadas vezes explorada pelo cinema oriental ( a vingança e a brutalidade a ela associada) mas não se reduz nem se esgota nesse tópico narrativo; aliás, reinventa-o magistralmente, graças a um argumento belíssimo com ecos de tragédia grega, a uma direcção artística notável e a um domínio virtuoso da câmara que não deixa ninguém indiferente. Filmar 'acção' de forma original nos dias de hoje é extremamente difícil, mas esta obra promete e cumpre na perfeição. O filme nunca se esquece que a captação arbitrária de cenas de acção de nada vale se por detrás não houver emoção, desenvolvimento narrativo e personagens consistentes com quem nos preocuparmos. Park Chan-wook constrói planos imbuídos da mais obscena violência que, no entanto, conseguem atingir um grau de beleza, lirismo e metafísica aparentemente impossível. Apetece dizer que Oldboy é quase um acto de sublimação de um certo tipo de violência estilizada e altamente coreografada, que escapa aos lugares-comuns daquilo a que temos vindo a assistir nos filmes do género. No entanto, aqui há de tudo: sangue a rodos, suor, lágrimas, amor desregrado e dor anímica, formando um cocktail explosivo e irresistível.
É um facto que Oldboy assemelha-se a um filme de 'super-herói' mas foge às habituais fragilidades narrativas desse universo, e não teme a sua condição de adaptação de um manga (de Tsuchiya Garon, para sermos precisos). A riqueza conceptual do todo é uma mais valia inolvidável, à qual se vem juntar ainda o imprescindível desempenho de Choi Min-sik, repleto de garra, desejo e vulnerabilidade comovente. Estamos perante um monumento cinematográfico moderno que divide radicalmente as opiniões. Eu cá já sei o que a casa gasta; se me perguntarem o que acho de Oldboy serei obrigado a responder eloquentemente: "Um dos melhores filmes de sempre!"







One from the Heart (1982), de Francis Ford Coppola

