quarta-feira, 9 de julho de 2008

Oldboy - Velho Amigo (2003)


A Vingança fez-se para Matar

A designação de obra-prima sabe a pouco, a muito pouco. O filme vai mais para além desse rótulo; é uma experiência inominável para os sentidos que jamais se descola da nossa pele. Oldboy é o segundo tomo de um tríptico sobre a Vingança (que teve o seu início com Sympathy for Mr. Vengeance e que culminou com Sympathy for Lady Vengeance), assinado pelo sul-coreano Park Chan-wook. Aclamado como um dos mais espectaculares exercícios do cinema oriental contemporâneo, Oldboy viu a sua mestria ser reconhecida no Festival de Cannes ao lhe ser atribuído o Grande Prémio do Júri em 2004 (Quentin Tarantino fazia parte do painel de jurados e ficou fascinado com a obra, concedendo-lhe uma espécie de benção que se tornou fulcral para a projecção internacional que se seguiu).

Depois de uma noite regada a álcool, Oh Dae-Su é raptado e misteriosamente encarcerado num quarto de hotel que apenas dispõe de uma cama, secretária, bloco de notas e uma televisão (a sua única janela para o exterior). Esta enigmática situação não se resolve de imediato mas sim prolonga-se durante 15 anos de duras sevícias e da mais cruel das reclusões. Porém, chega o dia em que Dae-Su é inexplicavelmente libertado e incentivado a descobrir, num prazo de cinco dias, a identidade de quem lhe causou tanta dor. Com a ajuda de uma simpática chefe de shushi, o homem lança-se numa árdua investigação que o colocará face ao seu passado e a um violento processo de vingança...

Subversivo como poucos, Oldboy glosa uma temática já demasiadas vezes explorada pelo cinema oriental ( a vingança e a brutalidade a ela associada) mas não se reduz nem se esgota nesse tópico narrativo; aliás, reinventa-o magistralmente, graças a um argumento belíssimo com ecos de tragédia grega, a uma direcção artística notável e a um domínio virtuoso da câmara que não deixa ninguém indiferente. Filmar 'acção' de forma original nos dias de hoje é extremamente difícil, mas esta obra promete e cumpre na perfeição. O filme nunca se esquece que a captação arbitrária de cenas de acção de nada vale se por detrás não houver emoção, desenvolvimento narrativo e personagens consistentes com quem nos preocuparmos. Park Chan-wook constrói planos imbuídos da mais obscena violência que, no entanto, conseguem atingir um grau de beleza, lirismo e metafísica aparentemente impossível. Apetece dizer que Oldboy é quase um acto de sublimação de um certo tipo de violência estilizada e altamente coreografada, que escapa aos lugares-comuns daquilo a que temos vindo a assistir nos filmes do género. No entanto, aqui há de tudo: sangue a rodos, suor, lágrimas, amor desregrado e dor anímica, formando um cocktail explosivo e irresistível.

É um facto que Oldboy assemelha-se a um filme de 'super-herói' mas foge às habituais fragilidades narrativas desse universo, e não teme a sua condição de adaptação de um manga (de Tsuchiya Garon, para sermos precisos). A riqueza conceptual do todo é uma mais valia inolvidável, à qual se vem juntar ainda o imprescindível desempenho de Choi Min-sik, repleto de garra, desejo e vulnerabilidade comovente. Estamos perante um monumento cinematográfico moderno que divide radicalmente as opiniões. Eu cá já sei o que a casa gasta; se me perguntarem o que acho de Oldboy serei obrigado a responder eloquentemente: "Um dos melhores filmes de sempre!"


Classificação: 5/5

terça-feira, 8 de julho de 2008

State and Main (2000)

Rodagem Debaixo de Fogo

Uma equipa de produção cinematográfica chega à pitoresca cidade de Waterford, no Vermont, para ali realizar um filme intitulado The Old Mill. As complicações também vêm com o staff e começam-se a manifestar logo ao início, sob a forma de actores egocêntricos, de um argumento ainda por trabalhar, de habitantes sequiosos por lucrar com as filmagens na sua terra e de um orçamento que se está a expandir para valores altíssimos. Entre a podridão moral daqueles que querem fazer um filme e daqueles que dele se querem aproveitar, surge uma das poucas pessoas que mantém a integridade pessoal e artística: o menosprezado escritor e agora argumentista Joe White, o (anti) herói da história que apenas deseja que o seu script veicule correctamente o tema da busca da pureza...

O que se retém de State and Main é uma deliciosa e contundente crítica à indústria cinematográfica de Hollywood, um pouco à semelhança daquilo que Robert Altman fez nos anos noventa no seu implacável The Player. O dramaturgo, realizador e argumentista David Mamet desenvolve uma fita de inegável subtileza que estabelece uma relação intíma com a linguagem teatral sem se alienar dos imprescindíveis códigos do cinema. Dito de outro modo: State and Main respira o ritmo fluido dos palcos, explorando os seus diálogos lapidares e as suas múltiplas personagens sempre nesse registo; no entanto, e apesar desta componente, nunca deixa de ser um filme. O que resulta é uma obra sedutora, inteligente e divertida (e com um grande, grande elenco) em que a pureza convive com os esquemas mais ardilosos de gente muito gananciosa. Joe White, desempenhado pelo sempre notável Phillip Seymour Hoffman, consegue atingir esse estado de candura não só no nome e no plano artístico, como também na veia amorosa, ao esbarrar com a dona da livraria local. Afinal, ainda há esperança para as gentes de Hollywood!


Classificação: 3/5

sábado, 5 de julho de 2008

Bitter Moon - Lua de Mel, Lua de Fel (1992)


Quando um Homem ama uma Mulher...

Roman Polanski encena, em Bitter Moon, um assombroso conto erótico que se propõe a destruir, com vincada convicção e sarcasmo, as mais diversas ilusões e convenções reinantes no género romântico. Não só o realizador cumpriu a tarefa com um êxito avassalador, assinando um drama muito ácido que se assemelha a um opúsculo anti-romance, como acabou por edificar um dos melhores títulos da sua filmografia. Estamos, de facto, perante uma melancólica história de encontros acidentais, tecida com uma elevada carga sensual e que perscruta, com sobriedade, a faceta mais perversa do desejo, do amor e da obsessão sexual.

Oscar e Mimi sentiram uma atracção instantânea quando os seus rumos se entrelaçaram. O amor fogoso brotou, ganhando uma aura idílica, mas cedo se auto-consumiu devido à forte dependência que se estabeleceu entre aquele par de amantes. Afinal, tudo o que é vivido com tanta intensidade acaba por estagnar, mais tarde ou mais cedo. Agora, enquanto estão num cruzeiro rumo a Istambul, Oscar e Mimi estabelecem contacto com um jovem (e reprimido) casal inglês, que será o fiel depositário dos relatos incendiários de uma paixão que já o foi, mas já não é, e que apenas deixou dilacerações irreversíveis nos seus elementos humanos.

Bitter Moon escalpeliza, com assumida naturalidade, temas tão escaldantes como a decadência moral, a anulação pessoal e a submissão (sendo que este último acarreta a prática do sadismo e masoquismo), sem nunca esquecer a estruturação de uma narrativa eminentemente complexa a nível dramático. O conteúdo aqui é sério, adulto e radicalmente diferente dos padrões românticos que Hollywood tão prolificamente advoga. Roman Polanski quase desce a patamares dantescos, nesse seu inominável objectivo de desbravar os territórios movediços da interacção entre um homem e uma mulher (e do amor e do ódio que se apoderam de cada um deles). Uma coisa é certa: a viagem naquele cruzeiro será tão trágica e inesquecível como o percurso daquela história amorosa.


Classificação: 4/5

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Sábado, na RTP2...



- A Cor Púrpura (1985), de Steven Spielberg. Com Whoopi Goldberg, Danny Glover e Oprah Winfrey (no papel que lhe deu uma merecida nomeação ao Óscar de Melhor Actriz Secundária);

- Morangos Silvestres (1957), de Ingmar Bergman. Uma das obras-primas do cineasta já falecido, que lhe grangeou a primeira nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Original.

Bom fim-de-semana!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

A Austeridade do Medo

Funny Games (1997), de Michael Haneke

Funny Games (2007), de Michael Haneke


Agora que o remake de Funny Games chegou às salas de cinema, seria bom rever a obra original na televisão!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Por onde andas, Nastassja Kinski?

Tess (1979), de Roman Polanski


One from the Heart (1982), de Francis Ford Coppola


Paris, Texas (1984), de Wim Wenders


terça-feira, 1 de julho de 2008

Dead Man - Homem Morto (1995)

Jornada para a Morte

Fascinante pérola existencialista dos anos 90, injustamente subvalorizada e esquecida. Jim Jarmusch celebra em Dead Man a revisitação do género querido do cinema clássico americano: o Western. Só que em vez de se contentar com a transposição dos códigos narrativos inatos a esse género e com o mero decalque da sua simplista atitude formal, Jarmusch reinventa-o e apresenta-nos um Western pós-moderno absorto numa metafísica arrebatadora, em simbologias desconcertantes e num acérrimo desencanto filosófico .

Filmado num belíssimo preto e branco (da responsabilidade de Robert Müller), Dead Man relata o árduo percurso físico, emocional e espiritual do jovem William Blake que, na segunda metade do século XIX, se dirige para a cidade de Machine em busca de um emprego como contabilista numa muito conhecida fábrica metalúrgica. Uma vez lá chegado, é maltratado pelo director daquela empresa familiar e posto na rua sem qualquer tipo de decoro. Ao errar pela pequena cidade "doentia", Blake trava conhecimento com uma afável ex-prostituta, com quem acaba por passar a noite. Mas o ex-amante da rapariga aparece e, num acesso de fúria, dispara mortalmente sobre ela, acabando por ferir também Blake. Este reage, abate o homem e foge sem destino. Às portas da morte e contando apenas com a ajuda de um índio (que alerta o contabilista para o facto de partilhar o nome com o famoso poeta visionário), Blake fica a saber que o homem que matou é o filho do empresário que o rejeitou, e que este mandou três assassinos no seu encalço...

Dead Man é uma galvanizante parábola sobre a Morte e uma carta de pessimismo em relação ao Homem e às suas acções inconsequentes. O filme tem um argumento tão rico que permite as mais estimulantes leituras: pode ser visto como o salutar encontro de um homem com a sua espiritualidade, a necessidade de fugir de contextos conspurcados (neste caso, a cidade) e alcançar a transcendência individual num qualquer lugar mais "puro", o agarrar a vida mesmo quando esta teima em nos escapar, ... Esta complexidade de interpretações torna Dead Man num objecto lírico irrepreensível, que foge aos lugares-comuns quer do cinema de massas, quer do dito cinema independente (que também os tem, é preciso dizer). Jim Jarmusch consegue aqui uma fita de inegável beleza etérea que encerra um paradoxo algo redundante, mas intenso: é no processo da morte certa que Blake saboreia como nunca a vida que lhe passou ao lado.

A composição musical de Neil Young é um pouco questionável, mas a verdade é que ajuda a acentuar o clima de estranheza veiculado pelo filme e confere-lhe uma identidade muito própria. Dead Man pode não ser consensual, mas quando alcança o nosso âmago, torna-se automaticamente uma referência do bom cinema arty dos anos 90.


Classificação: 4/5