quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Little Miss Sunshine - Uma Família À Beira De Um Ataque De Nervos (2006)

A Carrinha Mágica

Que delícia é este "Little Miss Sunshine"! São poucas as obras que conseguem unir tão bem a comédia inteligente com a mais aconchegante das ternuras e, nesse sentido, o filme triunfa por completo. Este road-movie atípico narra as desventuras de um clã disfuncional ou simplesmente excêntrico: o pai é um anti-losers convicto e guru da superação pessoal que tenta desesperadamente promover uma estúpida teoria dos 9 passos; o filho dedica-se à leitura compulsiva de Nietzsche e está já há alguns meses a cumprir um estranho voto de silêncio; o tio é um homossexual deprimido que falhou na sua tentativa de suicídio; o avô caracteriza-se por ser um hippie decadente e cocainómano com a língua bastante afiada; a mãe é o elemento mais equilibrado, que tenta por tudo ligar as pontas soltas entre os vários elos da família; e, finalmente, no meio de tanta peculiaridade está a benjamim Olive, uma simpática devoradora de concursos de beleza infantil que consegue mobilizar todos os adultos em direcção à famosa competição "Little Miss Sunshine", certame em que a menina faz questão de participar e que se realiza a largos quilómetros do lar. É aqui que entra a outra personagem do filme: a extravagante carrinha amarela, que é decididamente tão temperamental quanto os elementos humanos que nela se fazem transportar. É este problemático veículo que irá levar os Hoover ao seu objectivo, mesmo que tenham de passar por uma série de atribulações e algumas tragédias existenciais.

"Little Miss Sunshine" faz a apologia da importância da família, que neste caso se une em torno de um objectivo não muito estimulante, mas válido para afirmar o amor que existe entre todos (embora este sentimento se encontre algo abafado). Ao princípio, o filme pode dar a sensação de que vai manter as suas personagens apenas no patamar da caricatura, mas isto é só uma ilusão. Com o desenrolar da narrativa vai-se assistindo ao aprofundar da dimensão humana de cada um daqueles seres, sendo este um daqueles tópicos raras vezes tido em conta nas comédias. Curioso é também o facto de, durante a viagem, ser perceptível a contemplação às paisagens do interior dos EUA: apoiando-se numa fotografia de pasmar (e numa banda-sonora envolvente), o filme faz o retrato de uma América apelativa e capta um certo way of life, permitindo ainda que o espectador sinta que está dentro da carrinha com aquelas pessoas. No fundo, celebra-se a movimentação e a exploração de novos rumos como sendo condição sine qua non para o agregar de um clã à beira do colapso.

Quando o filme se começa a aproximar do fim, a acidez irrompe para parodiar o ridículo que habita nos concursos de beleza infantil. Os planos finais são de uma doçura extrema e ricos também em gargalhadas ruidosas. Porque as grandes comédias querem-se assim: capazes de nos comover enquanto estamos perdidos no riso...


Classificação: 4/5

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Adrian Grenier e a Entourage




Curiosidade Cinéfila: No filme "Celebridades" (1998), de Woody Allen, Adrian Grenier fazia parte da entourage da personagem de Leonardo DiCaprio. Actualmente, ele participa na série de sucesso "Entourage", onde desempenha uma estrela em ascensão acompanhada pela sua própria trupe.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Estreias Da Próxima 5ª Feira...




- "Into The Wild - O Lado Selvagem", de Sean Penn

- "Sweeney Todd - O Terrível Barbeiro de Fleet Street", de Tim Burton

- "Lust, Caution - Sedução, Conspiração", de Ang Lee

Definitivamente, esta é a época em que o bom cinema invade as salas nacionais.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Adaptation - Inadaptado (2002)

Confissões De Uma Mente Bloqueada

"Adaptation" é uma das mais geniais obras dos últimos anos! Só mesmo Charlie Kaufman para conseguir levar a bom porto uma bizarria deste género, que tem tanto de cómico como de ternurento. A inspiração para a criação deste inusitado filme partiu da real dificuldade de Kaufman em adaptar cinematograficamente o livro de Susan Orlean, "The Orchid Thief", que se baseia nas desventuras de John Laroche (um homem algo rude que nutre uma verdadeira obsessão pela busca de plantas exóticas). O que se examina em "Adaptation" é exactamente o argumentista Charlie Kaufman e as suas problemáticas em tecer uma narrativa cinematográfica baseada na obra de Orlean, ao mesmo tempo que espreitamos a investigação desta em torno do homem das plantas, que lhe permitirá escrever o seu livro.

Pelo meio, surge o irreverente e ficcionado irmão gémeo de Charlie, Donald, decidido a seguir o ofício do mano, se bem que sem grandes rasgos de originalidade. O grande senão de toda esta trama é que Charlie está a atravessar um período de bloqueio criativo, em que a escrita não lhe flui de todo. A poucos e poucos, sem consciência disso, Charlie começa a incluir-se no argumento que está a escrever, deturpando a essência original da obra e contaminando-a com as suas próprias angústias e neuroses. No outro pólo, Donald inicia um percurso de triunfo com a sua escrita banal e apressa-se então a dar uma ajudinha ao irmão em apuros.

Confusos? É normal que sim, até porque tentar explicar o filme é uma tarefa árdua e quase sempre mal-sucedida. Mas não há nada a temer: depois de se ter contacto com esta obra-prima, não é assim tão complexo perceber todas estas teias humanas. No fundo, o filme que vemos não é a adaptação do livro de Susan Orlean, mas sim a complicação de Charlie em ultrapassar a sua fase negra e como a sua vida disfuncional começa a afectar a metodologia do seu trabalho. Este insólito filme demonstra, de forma bastante acutilante, a dificuldade e as técnicas presentes no processo de criação dos diferentes objectos de arte e lança uma dura crítica à estafada fórmula "Sexo + Drogas + Violência Gratuita = Sucesso" que sempre imperou no reino cinematográfico, com maior ou menor qualidade.

O final satírico, que parece descambar e estragar tudo o que vinha sendo construído tão eficazmente, é mais inteligente do que parece e é a conclusão mais que perfeita para um filme tão alucinado quanto este (é só juntar as peças soltas e o sentido vem logo ao de cima). Os actores estão todos em topo de forma: Nicolas Cage em versão dupla exemplifica o excelente actor que é quando tem realmente uma personagem e um bom filme para defender; Chris Cooper continua um belíssimo actor de composição e Meryl Streep é a Meryl Streep, fabulosa como sempre e a personificação ideal de vulnerabilidade e sensibilidade. Depois de "Being John Malkovich", prova-se mais uma vez que a união Charlie Kaufman e Spike Jonze tem muito caminho ainda por desbravar. Uma delícia de filme...


Classificação: 5/5

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Election - Eleições (1999)

Senhora Presidente

Antes do reconhecimento mundial que obteve com "Sideways", Alexander Payne foi o realizador desta deliciosa comédia satírica que se movimenta no universo adolescente. A acção desenrola-se num liceu norte-americano: Jim McAllister é um respeitado professor de Estudos Sociais que se dedica de corpo e alma à profissão. Ele adora a influência que tem nos seus jovens estudantes, mas existe uma aluna com quem embirra infernalmente: Tracy Flick. Tracy é alguém para quem a escola é tudo na vida, não se importando sequer com o facto de ser uma solitária nem com o moderar da sua personalidade demasiado ambiciosa. Mas ela é alguém que veste capa de santa: acontece que Tracy envolveu-se com um professor, amigo de Jim, destruindo-lhe a vida familiar e profissional e saindo ilesa de toda essa situação. Quando Tracy se candidata a presidente do Corpo Estudantil, Jim começa a arquitectar um plano para lhe sabotar a campanha eleitoral e assim vingar o amigo. O professor convence um aluno irremediavelmene bronco, mas popular, a entrar na corrida pelo cargo, de forma a destronar a posição de destaque de Tracy. O que se vai passar naquele anónimo liceu durante a época de campanha é um espectáculo de sangue, suor e lágrimas de fazer corar as presidenciais americanas. "Election" adapta o livro de Tom Perrotta (o autor de "Little Children") e examina as atribulações do quotidiano de alguns estudantes, para quem a escola funciona como um segundo lar onde podem desempenhar um papel de grande relevo. Payne carrega na acidez para caracterizar este painel, mas é lúcido ao ponto de não atirar os seus adolescentes para os simplismos sociológicos que são banalizados na televisão, nomeadamente nas populares séries juvenis. Tracy é o exemplo perfeito: é verdade que ela é irritante e cínica, mas também se reconhece que é empenhada e responsável nos projectos que leva avante. No meio, Payne ainda tem espaço para descrever o exagero em torno de algumas acções escolares, que são aqui retratadas como tarefas com uma dimensão ao nível governamental. Matthew Broderick veste bem o papel do professor implacável que não quer ver a aluna a triunfar (apesar dele próprio não ser um santo) e Reese Witherspoon rouba o filme enquanto Tracy. O resultado é uma comédia divertida, que foi abençoada pela crítica e que já na altura dava indícios do talento do seu realizador.


Classificação: 3/5

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Os Melhores Posters Dos Últimos Anos, Parte II



- "Lord Of War - Senhor da Guerra" (2005): O poster do filme de Andrew Niccol, que foca o universo do negócio de armas, apresenta a imagem de um Nicolas Cage formado por balas (basta clicar na imagem para se ver melhor);


- "The Descent - A Descida" (2005): "A Descida" é um excelente conto de terror de baixo orçamento, já possuidor do rótulo de culto. O poster evoca o inferno vivido por um grupo de amigas, durante a sua expedição a umas grutas. Elas têm de contar umas com as outras para sobreviver e a imagem que resulta dessa união é a de uma caveira;


- "Paris, Je T'Aime" (2006): Para a ode ao amor na capital francesa, que reúne diversas contribuições artísticas, a opção recaiu sobre uma magnífica imagem de um coração arrebatador, com Torres Eiffel a pulular. É um belíssimo poster que alicia ao visionamento do filme;


- "The Secretary - A Secretária" (2002): Este é o ousado filme que reúne James Spader e Maggie Gyllenhaal. Ele é um advogado que contrata uma jovem com perturbações mentais para sua secretária e juntos envolvem-se numa relação sexual pontuada pelo sado-masoquismo. O poster é simples e provocador, mas também eficaz.

The Human Stain - Culpa Humana (2003)

Viagem Ao Passado

Coleman Silk é um prestigiado professor universitário que, certo dia, comete um erro ao referir-se a dois alunos negros ausentes como sendo "spooks" (termo com uma forte conotação racista). Essa simples afirmação, proferida sem qualquer espécie de maldade, acaba por virar do avesso a vida do docente: ele perde o emprego, o respeito e a sua mulher, que acaba por falecer na sequência destas reviravoltas. Coleman apenas encontra apoio emocional no seu fiel amigo e confidente Nathan Zuckerman, até ao dia em que se cruza com Faunia, uma bela empregada de limpeza com um percurso pessoal marcado pela tragédia. Entre este par tão improvável estabelece-se uma estranha relação amorosa, onde a importância do sexo está muito vincada, mas onde estranhamente os laços emocionais parecem não se querer enlear, para que nenhum deles saia magoado nem tenha que dar mais do que aquilo que é capaz. Contudo, esta ligação socialmente "proibida", que se vai mantendo nestes termos desequilibrados, não se revela um mar de rosas, já que o violento ex-marido de Faunia se insinua e começa a perturbar o casal. Entretanto, no decorrer da trama, vamos sendo apresentados a flashbacks referentes ao passado de Coleman Silk e, mais especificamente, a um segredo muito bem guardado que o acompanhou toda a vida (segredo esse que corrompeu definitivamente os seus laços familiares e que poderia ter evitado as complicações do presente).

The Human Stain tem por base a obra desse grande autor que é Philip Roth e foi realizado pelo veterano Robert Benton (o responsável pelo já clássico Kramer Vs. Kramer, com Dustin Hoffman e Meryl Streep). O filme aborda o peso da culpa, da intolerância e dos fantasmas do passado que atormentam a existência do par central. A narrativa é perpassada por uma abordagem clínico-confessional, que adensa a intimidade das personagens e que se torna fundamental para a exploração das mesmas. Estamos perante um drama de grande fôlego, que dá ares de alguma austeridade formal e temática e que se reveste de uma maturidade invejável. Enquanto marca passo na arte do storytelling, o filme tem ainda o mérito de ser psicologicamente denso ao mesmo tempo que deixa transparecer um certo tom de suavidade. O espantoso é esta capacidade, esta facilidade com que demonstra uma personalidade muito low-profile nos seus propósitos, sem deixar, no entanto, de nos atingir no âmago com toda a sua veracidade dramática.

Quanto ao casting, sinceramente, nunca compreendi o porquê de tanta celeuma: é certo que as opções poderiam ter recaído noutros actores (e quem viu o filme sabe do que estou a falar), mas seria injusto menosprezar o talento dos envolvidos. Anthony Hopkins e Nicole Kidman são bastante convincentes na abordagem aos seus papéis e sente-se uma ligação nesta dupla, sendo este um dos pontos-chave para que toda a dinâmica do filme resulte. É certo que The Human Stain exige um elevado grau de suspension of disbelief por parte do público, mas essa exigência está actualmente presente em tantas obras que não se torna uma medida assim tão difícil de adoptar. O que importa é que sejamos envolvidos no espírito daquela história e na trajectória daqueles indivíduos; esse é o objectivo fulcral. Finalmente, as sentidas interpretações do elenco secundário são também elas dignas de registo: Wenthworth Miller, Gary Sinise e Ed Harris complementam o esforço interpretativo do par principal com grande dignidade. A recuperar.


Classificação: 4/5