Perigo IminenteParece que Michael Bay está apostado a cumprir um único objectivo enquanto realizador: registar a maior dose de caos por filme, como que a querer cumprir uma qualquer quota. Basta lembrar, por exemplo, as desventuras dos dois Bad Boys e Armageddon. É certo e sabido que os argumentos às ordens de Bay são uma mera desculpa para filmar a acção desbragada, onde a alta velocidade mais enjoativa é rainha e a destruição massiva de tudo o que surge à frente é uma realidade incontornável. O fogo de artifício está empre presente, as perseguições são inevitáveis e a sensação de vazio é uma certeza absoluta. Para não variar, A Ilha não foge muito a este enquadramento.
Desta vez o realizador quis alterar um pouco o rumo das coisas, ao ceder a um argumento um pouco mais trabalhado do que é costume. Mas o esforço não valeu de muito, já que A Ilha pega numa temática interessante - a clonagem e respectivas complexidades e consequências - mas está-se completamente a borrifar para o aprofundar da mesma. É inevitável: Bay não está aqui preocupado com o desenvolvimento narrativo, tal como nunca esteve em nenhum dos seus outros projectos. Ainda assim, este é bem capaz de ser o seu filme com mais "sumo", apesar de tudo.
Passemos ao que interessa: situada num local remoto, encontra-se uma instalação hi-tech de grande beleza e de ambiente asséptico, que acolhe um considerável número de habitantes. Esta população, devidamente controlada por autoridades superiores, é ocasionalmente alvo de uma lotaria interna que premeia um dos habitantes com a ida para o destino mais que desejado. A saber: a Ilha, o último local do Mundo que não se encontra infectado e que corresponde inteiramente à noção de paraíso. Todos esperam a sua vez para se mudarem de malas e bagagens para lá, mas o habitante Lincoln Six-Echo começa a desconfiar da natureza dessa viagem. Quando a verdade sobre as identidades dos moradores vem ao de cima, Lincoln e a sua amiga Jordan Two-Delta escapam do complexo e são perseguidos implacavelmente pela forças de controlo...
A Ilha conta com excelentes valores de produção, traduzidos em cenários altamente sofisticados e equipamentos luxuosos. Ao nível do visual é inegável que se trata de um filme apelativo, mas nem isso foi o suficiente para atrair o público. A enorme aplicação monetária neste projecto não foi recompensada com lucro nas bilheteiras. De facto, A Ilha foi um fiasco monumental, um daqueles tipos de veneno que de vez em quando ataca o box-office norte-americano. A escolha do elenco soou a estranho desde o início, mas foi uma clara tentativa de aplicar prestígio a um produto rotineiro. Scarlett Johansson (cuja fotogenia é aqui celebrada entusiasticamente) e Ewan McGregor, actores normalmente ligados a filmes de menor orçamento e de maior qualidade, vão bem nos seus papéis, se bem que não lhes seja pedido para fazer muito mais do que correr o tempo todo.
É uma pena que o filme, para além de se perder na escolha do tom, cometa o erro de confundir correria tresloucada com intensidade emocional. Com tanta confusão visual a disparar de todos os lados, chega a ser estranho que o aborrecimento irrompa, mas é isso que acontece. Sem nada de particularmente memorável, fica-se com mais um thriller de acção descartável, influenciado por obras do passado, muito bonito mas com um teor demasiado light para deixar mossa (embora se use de um tema social e moralmente polémico).
Classificação: 1/5